Antonieta de Barros: a história da primeira deputada negra do Brasil

Jornalista, professora e primeira deputada negra do Brasil, Antonieta de Barros marcou a história da educação e da política brasileira

Por Beatriz de Oliveira

15|07|2026

Alterado em 23|07|2026

Ser a primeira nunca é apenas uma conquista individual. Treze anos após a abolição da escravidão, Antonieta de Barros nasceu em uma sociedade que restringia os espaços das mulheres negras. Tornou-se jornalista, professora, escritora e a primeira deputada negra do Brasil, abrindo caminhos na educação, na política e na imprensa.

Antonieta de Barros nasceu em Florianópolis (SC) no dia 11 de julho de 1901 e faleceu em 28 de março de 1952, aos 50 anos de idade.

“A primeira questão que grita aos meus olhos é o quanto ela foi corajosa e valente. Ela estava em minoria de raça e de gênero, numa sociedade que dizia que mulher não podia fazer uma série de coisas, e que mulheres negras só podiam fazer determinadas coisas”, destaca Jeruse Romão, professora e pesquisadora.

©Museu da Escola Catarinense

Jeruse é autora do livro “Antonieta de Barros: professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra do Brasil”. “Meu interesse nessa biografia é trazer Antonieta mais humanizada e entender como é que a família dela se constituiu, como é que essas pessoas atravessaram tantas barreiras no estado mais branco e mais racista do Brasil, que é Santa Catarina”, relata.

Antonieta era filha de Catarina de Barros, ex-escravizada. Com a abolição em 1888, se tornou liberta aos 26 anos de idade e passou a atuar como lavadeira e doméstica. Se empenhou para oferecer educação aos filhos, colocando-os em escola particular.

Sua irmã, Leonor, participou da fundação da Liga do Magistério Catarinense. Seu irmão, Cristalino, atuou em associações negras e fundou a União Beneficente dos Pintores de Florianópolis. “Eu descobri uma família muito ativa, muito interessante. Eles são muito queridos entre si, se gostam muito, são cooperativos”, conta Jeruse.

Para a pesquisadora, esse ambiente familiar é um dos pontos que ajudam a explicar o pioneirismo de Antonieta. O qual, aliás, começou cedo. Com apenas 17 anos, ingressou na Escola Normal Catarinense, para se formar professora, e lá foi presidente do Grêmio das Normalistas e organizou a revista manuscrita “A Graciosa”.

Maria da Ilha

Aos 20 anos de idade, Antonieta começou a escrever para jornais. Publicava principalmente crônicas e os assuntos eram diversos: trabalho, educação, magistério, guerras, catolicismo, desigualdades sociais e direitos das mulheres (apesar de se declarar contrária ao movimento feminista da época). Assinava com o pseudônimo Maria da Ilha e era uma das poucas mulheres a ter seus textos publicados em periódicos.

“Ela é a única mulher negra a escrever naquele momento nos jornais. Havia mulheres que publicavam poesias, mas ela era a única que ia pro debate público, pro enfrentamento público das ideias”, pontua Elizabete Espindola, historiadora, pesquisadora e autora da tese de doutorado “Antonieta de Barros: educação, gênero e mobilidade social em Florianópolis na primeira metade do século XX”.

A historiadora explica que Antonieta projeta seu nome na esfera pública através da escrita nos jornais. Começa escrevendo em pequenos periódicos e se aproxima de um círculo de literatos negros. Esse grupo vai formaria o Centro Catarinense de Letras, que fará frente à Academia Catarinense de Letras, a qual não aceitava escritores negros.

©reprodução

“Ali já se começa a observar o apoio de alguns políticos locais que queriam romper um pouco com essa bolha da elite local, que marginalizava a participação dos negros na literatura, em especial nos jornais”, afirma.

Logo, Antonieta passa a escrever para jornais maiores, como O Estado e República. Neste último, assinou a aclamada coluna Farrapos de Ideias. Em um de seus artigos, escreveu: “há uma grande lacuna na matéria de ensino: a falta dum ginásio onde a mulher possa conquistar os preparatórios para ingressar no ensino superior. O elemento feminino vê, assim, fechado diante de si, todos os grandes horizontes”, escreveu.

Segundo Elizabete, a educação para mulheres é um tema central nos escritos dela, e a participação política também se faz presente. “Quando vai se aproximando o período eleitoral, em 1932, quando as mulheres vão conquistar o direito ao voto e a serem eleitas, ela vai fazer bastante a defesa da participação feminina na eleição. Ela já começa a construir seu público leitor, que vai, inclusive, apoiá-la nessa eleição”.

Como é, infelizmente, comum ainda hoje para as mulheres negras que alcançam posições de destaque, Antonieta sofreu racismo a partir de sua atuação nos jornais. Em um artigo, o político e jornalista Oswaldo Rodrigues Cabral acusou que as publicações da escritora eram “intriga de senzala”.

Antonieta respondeu, através de artigo no jornal O Estado, que o discurso do jornalista era racista, chamando-o de ariano, e também afirmando a sua própria negritude. “Na verdade, não há intriga, porque não houve, mas as considerações em torno da situação desoladora do ensino público foram ditadas pelo coração de uma negra brasileira, que se orgulha de sê-lo, que nunca se pintou de outra cor (…)”, escreve.

Também faz menção à sua mãe, que é uma de suas maiores referências: “a santa Mãe, também negra, que a educou, ensinando-a a ter liberdade interior, para compreender e lastimar a tortura dos pobres escravos que vivem acorrentados”.

Antonieta também fundou e dirigiu os jornais A Semana (1922 -1927) e Vida Ilhoa (1930). Já em 1937, teve seu primeiro e único livro publicado: Farrapos de Ideias, que reunia seus artigos na coluna de mesmo nome. Os lucros da primeira edição foram doados para construção de uma escola para abrigar crianças filhas de pais internados no leprosário Colônia Santa Tereza.

Professora Antonieta

A luta pela educação guiou a vida de Antonieta de Barros. Um dos frutos disso foi a fundação de uma escola com a irmã Leonor. Em 1921, a professora concluiu os estudos e como não existiam concursos públicos para seleção de professores e as vagas eram ocupadas por indicação, ela fundou sua própria escola particular.

Logo, a escola se tornou conhecida por sua qualidade, atendendo desde os filhos das classes trabalhadoras até os filhos da elite. “Todo mundo queria ser aluno dela. A escola dela, que era pequena, teve que mudar de endereço, porque todos queriam colocar as crianças na escola das irmãs Barros. Ela era uma professora excelente. Algumas pessoas dizem que era muito rigorosa metodologicamente”, relata a pesquisadora Jeruse Romão.

© Albúm da normalista Maria Carolina Gallotti Kehrig, 1947.

Em 1933, no primeiro governo de Getúlio Vargas, ingressou no serviço público ao ser nomeada como professora substituta na Escola Complementar. Já em 1938, participou ativamente da Cruzada Nacional de Alfabetização de Santa Catarina, período em que foi também diretora da Escola Hercílio Luz, que oferecia ensino noturno para a alfabetização de adultos das classes trabalhadoras.

O prestígio da intelectual como professora também se refletiu na escolha dela para dar discursos em solenidades de formatura da Escola Normal, de formação de professoras. Em um desses discursos, ela disse: “educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços”.

Primeira deputada negra

Em 1934, Antonieta de Barros foi eleita como a primeira deputada negra no Brasil, logo após a conquista do voto feminino. A professora foi candidata pelo Partido Liberal Catarinense. Segundo pesquisas de Jeruse Romão, em entrevista ao jornal carioca “A Noite”, Antonieta disse que entrou na política a convite do seu partido.

Sua campanha foi fortemente apoiada por professoras da região, o que se somou à visibilidade conquistada através dos artigos nos jornais. Seu primeiro mandato durou até 1937, quando o presidente Getúlio Vargas instituiu a ditadura do Estado Novo.

A historiadora Elizabete Espindola destaca que o processo eleitoral foi bastante tenso e a apuração dos resultados demorava meses. “Em 1934, é feita uma eleição por uma assembleia constituinte. E então Nereu Ramos [político catarinense], para garantir a eleição dele, vai aquartelar a assembleia constituinte, para que o Aristiliano Ramos [político catarinense] não tivesse acesso”, conta. Esse processo foi seguido também por tiroteios e ataques no centro de Florianópolis.

©reprodução

“Antonieta vai dar uma entrevista para um jornal do Rio de Janeiro falando dessa sensação de medo de ter ficado aquartelada. E o quanto a memória da mãe foi importante para ela, que dizia que a liberdade é a coisa mais importante para um ser humano”, acrescenta.

A professora voltou à política em 1945, período em que foi eleita como deputada suplente. Seus mandatos foram marcados por projetos de melhoria da educação. Entre eles, estavam a reivindicação pela ampliação do número de escolas, a criação do Dia do Professor, a igualdade salarial entre os professores, e nomeações transparentes nos concursos públicos.

“Em 1948, ela aprova um projeto que garante bolsa de estudo para alunos carentes. Então, é uma concepção de que não basta só ingressar, tem que permanecer”, relata Jeruse. Em outro projeto de defesa da educação, conta a pesquisadora, ela diz que o direito à educação é tão sagrado como o próprio direito de viver, e quem deve garantir esse direito é o Estado.

Legados vivos

Antonieta de Barros teve uma trajetória singular. “Foi uma mulher muito bem articulada, intelectual, com uma leitura geral da realidade. Criou uma rede de relações, circulava pelas classes A, B, C e D. Ela consegue, de certa forma, elaborar estratégias para sobreviver a esse mundo opressor em relação às mulheres, principalmente, para uma mulher negra”, pontua Elizabete Espindola.

©Literafro

Mais de 70 anos após sua morte, os legados de Antonieta permanecem vivos através de pessoas e iniciativas que buscam honrar a sua memória. É o caso do livro infantil Antonieta, de Eliane Debus, que conta a trajetória dessa professora para crianças.

“Como pesquisadora da literatura para infância, vivendo nesse sul do Brasil, que tem negros, mas que todos os dias são silenciados, eu adentro nas narrativas dizendo que a literatura negra tem que estar presente para que todos sejam representados. Para que a criança, negra e não negra, possa conhecer essas histórias”, afirma a professora e pesquisadora Eliane Debus. Ela destaca que, em Florianópolis, Antonieta dá nome a várias coisas, como escola, rua e túnel. Apesar disso, sua história ainda não é conhecida como deveria.

Outra manifestação do legado da intelectual é a Coletiva Antonieta de Barros, criada pela professora Ana Koteban após sofrer uma situação de racismo na escola em que trabalhava. “O que me chocou foram as lacunas institucionais, a ausência de um entendimento institucional de que aquilo precisava ser enfrentado”.

A coletiva é formada por professoras negras de São Paulo (SP) e atuou na elaboração do “Protocolo para prevenção e enfrentamento ao racismo e à xenofobia na educação”, válido para as escolas da capital paulista, e dos “Protocolos de identificação e resposta ao racismo”, de nível federal.

“Escolhemos o nome da Antonieta como essa figura que tem uma incidência direta pedagógica e política. E a gente se identificou com essa característica da Antonieta: a atuação dela institucionalmente no poder legislativo”, explica.

Em cada passo dado na luta pela educação e pelos direitos das mulheres, Antonieta segue presente.