A fé que cura: benzedeiras preservam ancestralidade e tradição popular
Com a prática do benzer, essas figuras carregam saberes que atravessam gerações
Por Beatriz de Oliveira
24|07|2026
Alterado em 24|07|2026
Nas mãos, adornadas pelas marcas do tempo, seguram ramos de folhas. Na voz, movida por sabedoria e vivências múltiplas, entoam palavras de fé. As benzedeiras, geralmente mulheres mais velhas e negras, carregam em si a beleza da ancestralidade, o dom da cura e o poder de afastar os males que atormentam quem as procura.
Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, o Nós, mulheres da periferia reverencia essas figuras que detêm o dom de benzer, e que fazem da reza um instrumento de cura.
Entre os males que elas afastam, estão questões que afligem o corpo e a mente, e que no mundo das benzedeiras ganham nomes singulares, como quebrante, bucho virado, lombriga, assustado, mal-jeito, cobreiro, sol da cabeça e espinhela caída.
Não há manual de benzimento, mas as rezadeiras costumam usar elementos comuns em seus atendimentos. É o caso de ramos de plantas, como arruda e alecrim; água benta; crucifixo; terço; cachimbo; panos e linhas. Geralmente associadas ao catolicismo popular, como informa um verbete no Dicionário de Favelas Marielle Franco, as benzedeiras usam elementos e tradições vinculadas aos saberes ancestrais das culturas indígenas e africanas.
Apesar das diferenças nos métodos, estão unidas pelas práticas da reza e pela fé na cura. Entre essas figuras está Maria da Conceição Pereira Marques, ou apenas Dona Conceição. Aos 75 anos de idade, carrega há décadas o dom de benzer e de afastar os males.
“Eu te atendo, te falo tudo, te rezo e já tenho a certeza absoluta de que você vai melhorar. Nunca penso que não vai melhorar. Desde pequena eu sou assim, alegre e otimista, isso aí já é de berço”, diz.
Dona Conceição
Usando brincos perolados, uma lace loira e uma blusa rosa com coraçõezinhos pretos, Dona Conceição conta que gosta de ser vista como uma pessoa popular, e não propriamente a partir do imaginário acerca de como deve ser uma benzedeira. Sempre foi católica, mas não daquelas fervorosas. Gosta de conversar com Deus, sem a obrigação de cumprir os ritos da religião.
©Beatriz de Oliveira
O dom de benzer veio aos 28 anos de idade, quando passava por um momento difícil na condução do lar, onde vivia com o marido e os dois filhos. Além das dificuldades financeiras, se sentia insatisfeita com a vida, queria fazer algo mais útil, mais concreto. Porém, não sabia o que seria isso.
Resolveu então pedir a Deus um caminho, uma resposta. Achou um livrinho de oração antigo e fez suas preces. No dia seguinte, ao chegar do trabalho – um antiquário que vendia jóias – e ver que as crianças estavam bagunçando, foi até o banheiro – o lugar mais calmo para fazer suas orações.
Quando começou a rezar, o local foi tomado por uma luz azul clara e uma voz nítida que dizia ser a do anjo Gabriel. Ali, o anjo a informou que Deus estava atendendo aos seus pedidos, tirando suas perturbações e lhe dando o dom da profecia.
Dona Conceição ficou assustada, mas acreditou em cada palavra. No dia seguinte, quando chegou ao trabalho, chamou os colegas e pediu para que lhes perguntassem coisas sobre suas vidas, às quais ela respondia com a certeza vinda do dom da profecia.
Neste mesmo dia, por volta das 11h, fez seu primeiro benzimento. Foi em uma senhora que vivia com uma ferida na perna que nunca curava. Os dizeres da reza vieram de maneira natural. No final da semana, a senhora estava livre da ferida.
A partir daí a notícia sobre o dom de Dona Conceição foi se espalhando. Houve um período em que, ao chegar do trabalho, havia uma fila de pessoas na frente da sua casa – no Jardim D’abril, em São Paulo (SP) – esperando por benzimento. Para atender a todos, benzia até de madrugada.
Nessas décadas de prática como rezadeira, já atendeu pessoas de todas as camadas sociais, com queixas diversas. E em todos os casos, tem a certeza de que a pessoa vai melhorar.
“Te desato as cordas. Tiro todas as cordas que te levam a sofrer, a ficar triste. Eu solto a pessoa completamente”, explica.
No início, não aceitava dinheiro pelos benzimentos. Mas com o tempo, passou a aceitar contribuições voluntárias que são usadas nas ações sociais que realiza em sua comunidade. Na sua festa de Natal realizada todos os anos, recebe dezenas de pessoas.
©Beatriz de Oliveira
Dona Conceição não usa ramos ou objetos para benzer. Faz suas rezas enquanto movimenta as mãos, de onde, segundo ela, vem o poder de cura. Além disso, não faz exigências para os pacientes. “Eu não posso de jeito nenhum dar regras para você, senão eu estou invadindo, estou proibindo você de aprender. Você tem que aprender pelo seu dia a dia”, diz.
Questionada sobre o que significa ser uma benzedeira, ela responde que não há mistério. “O benzer é você querer bem ao ser humano. Isso já é uma maneira de rezar e de representar humildemente aquilo que Deus quer”, diz.
A prática do benzer
A prática do benzer atravessa gerações. As benzedeiras existem desde o período colonial, junto a outras práticas religiosas e médicas populares, conforme aponta o artigo “Desfazendo o ‘Mau-olhado’: Magia, Saúde e Desenvolvimento no Ofício das Benzedeiras”, Isso se explica pela precariedade dos serviços de saúde à época, com poucos médicos e pouca estrutura hospitalar, aliada ao sincretismo religioso entre diferentes povos.
O rito do benzer, apesar das variações, tende a começar com uma conversa entre a benzedeira e a pessoa atendida, para saber quais os males precisam ser tratados. Em seguida, a senhora começa a fazer suas rezas e usar os elementos de benzimento. Por fim, ela pode indicar algumas recomendações para o paciente, como tomar banho com alguma erva, por exemplo.
Ao mesmo tempo em que é visto como um dom, o benzimento também pode ser aprendido. Os autores do artigo entrevistaram dez benzedeiras que vivem em cidades do interior dos estados de São Paulo e Minas Gerais. “A maioria relatou a transmissão do ofício a partir de um familiar, destacando a prática da benzeção como algo que pode ser ensinado, aprendido e transmitido por meio da tradição oral. Mesmo assim, o ofício também é compreendido como um dom inato que atravessa o desenvolvimento, o que requer dedicação, paciência e abnegação”, escrevem.
Além disso, essas personagens estão inseridas no universo da medicina popular e da tradição religiosa, sendo muito respeitadas pela comunidade em que vivem. “O enfermo que a procura acredita que ela tem o ‘dom’ de curar, pois o recebeu de Deus. A opinião coletiva reforça a crença no poder de cura das benzedeiras, pois a prática da benzeção faz parte das tradições culturais do grupo e tem eficácia simbólica para seus membros”, lê-se na tese de doutorado “Abençoada cura: poéticas da voz e saberes de benzedeiras”.
Exposição Benza
Karen Lima lembra com carinho das vezes em que, quando criança, seus pais a levavam para ser benzida. Isso acontecia em casas simples, onde moravam mulheres igualmente humildes, mas dotadas de um dom grandioso.
“Eu lembro dessa senhora misteriosa que pegava folhas e batia em mim. Eu ficava encantada com a folha que estava verde e viva, e quando ela passava em mim, ficava murcha. Eu via aquilo quase como uma magia, um encantamento, um mistério”, conta.
Já adulta, a fotógrafa e jornalista transformou esse encantamento na exposição de fotos chamada Benza. O projeto, que inclui uma mostra virtual, reúne imagens de cinco benzedeiras do sertão de Pernambuco que carregam, em si, saberes antigos: Mãe Joana, da Comunidade Conceição das Crioulas, em Salgueiro; Rita Pankará e Dona Terezinha, em Orocó; Dona Teinha, em Floresta; e Mãe Neide, em Petrolina.
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Karen Lima destaca que as rezadeiras carregam uma importância cultural, religiosa e de saúde. “Em muitos casos, as rezadeiras eram as primeiras ou as últimas pessoas a quem se recorria. As primeiras, porque numa comunidade pequena, sem acesso a remédios e médicos, as pessoas iam até elas para procurar socorro. E as últimas, porque quanto você já tentou de tudo para resolver um problema e acredita que não tem mais jeito, vai até uma rezadeira, porque pode ser algo espiritual”, explica.
A fotógrafa pontua a relevância de manter vivo esse legado através de iniciativas como a mostra Benza. “A tradição das rezadeiras está se perdendo, porque elas estão envelhecendo. Então, é importante resgatar essa memória e mostrar a importância dessa tradição, para que ela não seja esquecida e para mostrar que, apesar disso, ainda existem mulheres que benzem”.


