A solidão da mulher negra e a importância do feminismo negro são os temas abordados no décimo e último episódio da websérie “Nossa voz  ecoa”, que estará disponível no Youtube a partir do próximo dia 24. Um dos destaques é  o  depoimento  da  cantora  Liniker  à  rapper  Preta-Rara, apresentadora da websérie.

Liniker admite que, apesar da fama, se sente só e é vítima diária de preconceito.  “Nossa voz ecoa” foi lançado na internet em 12 de setembro e, desde então, quinzenalmente, novos  episódios  foram  divulgados,  tendo  como proposta  a  discussão  de  questões  relacionadas  ao  movimento  negro, feminismo e gordofobia, além da cultura hip hop.

O  projeto  foi  possível  graças  ao  financiamento  do  Programa  de Apoio à Cultura (PROAC), da Secretaria Estadual de Cultura. O programa tem direção, roteiro e edição de Cibele Appes, foi idealizado por Preta-Rara e Talita Fernandes e é coproduzido pela Audácia Produções, Fuzuê Filmes e Zulu Produtora.

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Joyce Fernandes, a Preta Rara.

Crédito: Divulgação

As entrevistas são conduzidas por Joyce Fernandes, conhecida como Preta-Rara, rapper, militante do feminismo negro, ex-empregada doméstica e professora de História. “Com uma população cuja maioria é formada por negros  e  pardos  não  podemos  ter  um  número  tão  pequeno  de  negros  nos principais  canais  de  comunicação  e  entretenimento.  Nossa  websérie permite  que  o  negro  seja  protagonista  de  sua  própria  história”,  afirma Preta-Rara.

Filha de Dandara

Neste  último  episódio,  intitulado  “Filha  de  Dandara”,  a  websérie discorre  sobre  a  validade  do  feminismo  interseccional,  considerando  as opressões cotidianas da mulher negra, que resultam em sua solidão afetiva e institucional.

Confira os episódios anteriores no link do canal. 

A  filósofa  Djamila  Ribeiro  também  participa  do  programa  e considera  que  a  interseccionalidade no  feminismo  é  necessária  porque  a universalização  do  movimento  não  dá  conta  das  discriminações  de  raça, classe e gênero sofridas pelas mulheres negras.

A  atriz  e  diretora  teatral  Lucélia  Sérgio,  por  sua  vez,  enfatiza  a solidão vivenciada pelas mulheres negras. “Não é só estar ao lado de um homem ou de uma mulher, essa solidão está relacionada a uma cadeia de afetividades. Por isso, a mulher negra aprendeu a viver sozinha”.

Liniker  concorda  com  essa  percepção  e  se  confessa  solitária. “Sempre  me  senti  uma  menina  e  me  sinto  à  vontade  como  sou.  O complicado  é  a  afetividade  e  isso  me  deixa  chateada.  A  gente  tem  a esperança diária de encontrar alguém, mas não acontece. As pessoas acham que quem tem visibilidade, tem amor, mas não é assim”.

A  cantora  contou  que  em  seus  shows  costuma  ver  as  pessoas  se beijarem, se abraçarem e aí percebe mais claramente sua solidão. “Tenho vontade  de  chorar,  porque  depois  sei  que  vou  chegar  ao  hotel  e  não  ter ninguém”.

Cantora Liniker participa da websérie

Crédito: Divulgação

A  fama  também  não  evitou  o  preconceito  racial  e  sexual,  segundo Liniker.  “O  fato  de  estar  na  mídia,  de  as  pessoas  me  conhecerem,  me diferencia das meninas trans que estão nas ruas, mas a violência é a mesma. Também me sinto desrespeitada, objetificada, perseguida”.

Apesar  desse  cenário  desfavorável,  Liniker  reafirma  suas  origens. “As  mulheres  pretas  são  a  base  de  tudo  o  que  eu  sou,  de  onde  eu  vim, minha  raiz.  Eu  sou  uma  mulher  preta,  meu  berço  é  preto  e  eu  amo  fazer parte disso”.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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