Eu sinto nojo e pavor quando me deparo com notícias de mulheres que sofreram violência sexual dentro do transporte público. Mas o que me consome mesmo é a raiva quando esses abusadores saem impunes. Gente, como assim? O cara gozou no pescoço de uma mulher, foi pego em flagrante, levado para a delegacia, um boletim foi feito, mas nada aconteceu com ele?

Na decisão, o juiz entendeu “que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado”.

Apesar de ato grave, no entendimento do juiz o abusador precisa de tratamento psiquiátrico e psicológico e nada além disso. Oi? Não, pera! E a mulher que entrou em choque quando se viu nessa situação, sim, extremamente constrangedora, quem irá ampará-la? E aí, quem vai tratar de seus traumas psicológicos? E eu? como fico com essa decisão que abre jurisprudência para tantas outras? E se eu der o azar de pegar um ônibus com esse mesmo abusador?

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Protesto contra o assédio sexual no metrô

O delegado que fez a ocorrência no 78º DP, no Jardins (zona oeste) não pediu prisão preventiva do sujeito, o Ministério Público também achou que estava tudo bem e pediu o relaxamento do flagrante. Gente, sério, isso não pode estar certo!

Não era a primeira vez que o meliante agia assim e se continuarmos com decisões desse tipo não será a última. Quem são as pessoas que decidem se o cara vai ser solto ou não? quem está ocupando esses espaços de poder? Adivinha? Bingo! São homens.

Eu, que quero tentar me proteger, já que nem na justiça dá para confiar, posso tentar uma alternativa mais segura, de repente um transporte privado, que acionarei por um aplicativo. Mas adivinha? Não adianta! Lá você também pode sofrer abuso. Recentemente, uma mulher foi vítima de estupro por um motorista. O cara simplesmente enfiou o dedo na vagina dela.

Diferente da moça do transporte público, ela não denunciou, porque sabia que não ia adiantar nada, e fico triste em saber que o caso acima reforça que ela tinha razão. Não adianta, não importa o lugar em que nós mulheres estejamos, sempre seremos objeto de desejo, um pedaço de carne. Resta a mim engolir mais essa dor e vomitá-la nesse texto desabafo que não pode me livrar de ser a próxima.

Bianca Pedrina é de Carapicuíba e cofundadora do Nós, mulheres da periferia.

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