Em muitas situações, quando comento com familiares, amigos, colegas de trabalho, sobre lugares que frequento pelas periferias da cidade, ouço frases do tipo “nossa, mas lá não dá pra ficar andando a noite né?”, “você vai até o Grajaú a essa hora?”, “você tá doida?”. Ou então, quando vou chegar muito tarde em casa, sempre há conselhos de precaução. “cuidado”, “melhor você vir mais cedo”, “chegue logo”.

Eu sei que São Paulo é uma cidade perigosa, sei também que muitos lugares da periferia não há iluminação e segurança, mas não sinto muita diferença entre andar nos bairros da periferia e andar no centro. Os discursos sobre violência e insegurança sempre recaem para a periferia, e nós, moradores, seguimos estigmatizados, e não somos estimulados a ter autoestima e orgulho de onde vivemos. Mas, ao contrário, eu sinto mais medo de andar sozinha no centro da cidade do que na periferia.

Créditos: Daniel Duende Carvalho (Flick/Creative Commons)

Créditos: Daniel Duende Carvalho (Flick/Creative Commons)

Não sei se é porque aprendemos que o centro não é o nosso lugar, mas no centro me sinto muito mais vulnerável. O centro é um espaço cheio de problemas, como toda a cidade, e evidencia problemas sociais tal qual os bairros periféricos. Me sinto insegura, sempre pensando que a qualquer momento posso ser assaltada ou atacada em alguma discussão na rua.

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Geralmente sinto isso nos locais do centro que são mais abandonados, tal como as periferias. Nesse sentido, somos vizinhos. Existem espaços mais bem cuidados e valorizados no centro, claro, mas isso também se reproduz nas periferias. Todas elas têm seus centros.

Não sentir medo de andar a noite pelas ruas em São Paulo deve ser privilégio de quem vive nos bairros mais ricos, mas talvez nesses lugares não se circule muito caminhando, e sim somente nos carros, blindados ou não, se refugiando em condomínios, sob muros, negando o que ela é de verdade. Mas, por mais que se escondam da própria cidade, não conseguem fugir totalmente da sua realidade, e acabam reforçando os estereótipos e o medo que a sociedade cria em relação às áreas pobres e periféricas.

Mas nós, moradores das periferias, não devemos ter a mesma postura que eles. Quero me sentir segura na cidade toda, e não quero que todos considerem que onde moro é um lugar pior e mais perigoso. Os programas de TV podem alarmar, os índices de crimes podem infelizmente se manter, mas, quero continuar sentindo a mesma sensação de conforto de sempre quando desço no meu ponto de ônibus e caminho até o meu portão.

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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