Por Semayat S. Oliveira | 04/07/2017

“Eu sempre encontro pessoas adultas, formadas na escola, em universidades, que nunca leram livros escritos por mulheres negras. E essas pessoas são consideradas cultas”, disse a norte-americana Ola Ronke, artista e criadora da The Free Black Women’s Library, uma biblioteca que reúne livros escritos apenas por mulheres negras. O projeto nasceu em junho de 2015 com a intenção de criar acesso, comunidade de leitura e promover obras que ficam na margem do mundo literário. Clique aqui e assista a entrevista exclusiva concedida ao Nós, mulheres da periferia.

Moradora do Brooklyn, em Nova York, um de seus objetivos é fazer com que mais moradoras e moradores se apropriem e interajam com o acervo, a biblioteca é itinerante e acontece em um lugar diferente do bairro todos os meses. A construção do acervo começou após uma mobilização nas redes sociais. Em um mês, ela recebeu mais de 100 livros por correios, enviados de diferentes lugares dos Estados Unidos. Hoje, são 700 títulos.

Diferentes dos tradicionais “empréstimos” em bibliotecas, neste caso o objetivo é a troca: quem traz um livro escrito por uma mulher negra é livre para trocar por algum livro do acervo, que vai desde livros infantis até livros técnicos, sobre arquitetura, por exemplo. “Mulheres negras têm conhecimento para compartilhar sobre absolutamente tudo”, disse Ronke, “um dia, um casal que tinha acabado de receber o primeiro filho trocou títulos acadêmicos por livros para crianças”.

Nesses dois anos levando a biblioteca para lugares diferentes, a bibliotecária observa que 80% do público é composto por mulheres negras, seguidas de 20% de homens negros e 10% de mulheres de outras etnias. Em sua opinião, isso reflete a falta de atenção que esses trabalhos recebem e como certos grupos os consideram insignificantes. Parte de sua busca em relação a biblioteca é incentivar a diversidade. Para isso, ela conta que sempre reforça em seus convites que todas as etnias são bem-vindas.

“É uma busca de forçar as pessoas a se perguntarem: por que eu nunca li ou soube sobre esses livros? Quem decide o que é considerado excelente em literatura? E por que esse meio é tão branco e tão masculino? Quando se vê nomes de mulheres negras em lista de livros clássicos dos Estados Unidos, a proporção é de 1 em 50”, provoca Ola Ronke.

No cenário brasileiro, pouco muda. A tradicional Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, já é conhecida por ter uma programação composta por convidados majoritariamente masculina e branca. Neste ano, 2017, pela primeira vez, o número de mulheres convidadas ultrapassou ao de homens, mas o contingente de escritoras e escritores negros ainda está muito longe de ser minimamente compatível. Todos os anos, há mobilizações e reações deste grupo contra a organização do festival.

Refletindo sobre o 80% de mulheres negras que frequentam a The Free Black Women’s Library em Nova York, é possível deduzir que sem redes de apoio e promoção criadas por outras mulheres negras, certamente o nível de alcance dessas obras e o número de talentos desperdiçados seriam muito maior. Um exemplo desse movimento de cooperação e apoio mútuo no Brasil é a publicação do livro “Pretextos de Mulheres Negras”, lançado em 2014 pelo coletivo Mijiba. O livro reúne escritos de mais de 22 autoras negras e periféricas. Desde a concepção até o projeto gráfico, apenas mulheres negras se envolveram nessa entrega.

Se apropriar das ferramentas de produção também é um outro caminho necessário. E nessa linha, nasceu em 2016 a editora Ijumaa, que já publicou dois títulos: “Negra Nua Crua”, de Mel Duarte,  e “#Paremdenosmatar”, de Cidinha da Silva. O objetivo da organização é editar e publicar escritores e referências Afrocêntricas, Panafricanas e Afrobrasileiras, posicionando o indivíduo negro como narrador de sua própria história na contemporaneidade.

Além disso, recentemente a jornalista baiana Calila das Mercês lançou  o mapeamento de escritoras negras na Bahia, com a intenção de facilitar o acesso e aumentar o conhecimento sobre essas produções. O projeto prevê três produtos diferentes: um site, um ciclo de oficinas e um e-book bilingue. Acompanhe clicando aqui.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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Comentários:

  1. Parabéns por matéria e entrevista tão importante. Que nenhuma biblioteca seja considerada uma “boa biblioteca” sem nossa presença literária. Existimos.