Criado pela ONU (Organização das Nações Unidas), 5 de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Muito além de ser apenas uma data comemorativa, o dia é utilizado também para evidenciar os desafios que ainda existem em todo o mundo no que diz respeito ao cuidado e proteção do  meio ambiente.

Para falar sobre um dos maiores problemas ambientais existentes no Brasil nos dias de hoje, o Grupo Brasil de Fato foi até Barcarena (Pará) e, durante 5 dias, entrevistou mais de 25 pessoas, entre moradores, lideranças e ambientalistas.
Os depoimentos e reflexões sobre o impacto dos crimes ambientais que assolam a cidade paraense nos últimos 15 anos, podem ser conferidos nesta terça-feira (5/6), no lançamento do documentário  Tinha gosto de perfume – Barcarena e os crimes ambientais impunes”, na Casa do Baixo Augusta ( centro de SP).

Mulher em Barcarena (PA) | Pedrosa Neto

Com aproximadamente 14 minutos, o curta narra a grave crise humanitária que os cerca de 99 mil moradores de Barcarena (cidade a 110 km da capital, Belém, no Pará), enfrentam diariamente com ps impactos socioambientais causados por empresas estrangeiras de mineração na região.

Segundo um estudo da Comissão de Direitos Humanos da Alepa (Assembleia Legislativa do Pará), apenas entre 2003 e 2018, foram 20 acidentes com contaminação significativa na terra, no ar ou nas águas de Barcarena. Um dos mais graves e recentes ocorreu em fevereiro de 2018, quando houve o transbordamento de material tóxico da bacia de rejeitos da Hydro Alunorte, contaminando rios, poços e nascentes da região.

A cidade de Barcarena tem, aproximadamente, 31 mil crianças e adolescentes com idades entre zero e 14 anos, o que representa 26,3% da população. O contato com a poluição e a contaminação constante causa doenças de pele, alergias, problemas respiratórios, entre outros tipos de doenças.

Outro impacto significativo é na biodiversidade dos rios e igarapés. A pesca, que é uma importante atividade de subsistência e geração de renda, foi interrompida por causa do sumiço dos peixes na bacia do rio Mucurupi, que tem 7 km de extensão e 20 afluentes. Resíduos de contaminação de diversos acidentes ambientais e metais pesados estão depositados no fundo do leito do rio. Como dizem os pescadores, nos poucos peixes encontrados o gosto era de perfume.

Crianças em Barcarena (PA)| Pedrosa Neto

O impacto na vida dos moradores também é econômico. Quase metade da população vive com uma renda inferior a 50% do salário mínimo. E apenas 20,8% dos moradores de Barcarena têm um emprego com remuneração fixa.

Uma degradante fonte de renda para centenas de moradores da cidade é recolher material reciclável, disputando espaço com urubus, no lixão que fica próximo a, multinacional norueguesa  de mineração apontada como a responsável pela contaminação de fevereiro de 2018, além de outros acidentes anteriores.

Nós, mulheres da periferia, entendendo que as periferias brasileiras vão muito além do espaço urbano, entrevistamos Karina  Karina Martins, coordenadora do MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração), para entender como os crimes ambientais no Brasil afetam diretamente a vida das mulheres e crianças que vivem nessas regiões.

Moradora de Guianases, na zona leste de São Paulo, Karina, hoje aos 33, é professora de Fislosofia e sempre manteve uma militância voltada às questões da terra, mesmo morando no espaço urbano. Integrou a Pastoral da Juventude, vinculada às Comunidades Eclesiais de Base (CEB)na adolescência e militante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST). Confira a íntegra da entrevista abaixo.

Nós, mulheres da periferia: Como os impactos da exploração de minérios afeta as mulheres nessas regiões? 

Karina Martins: Os crimes ambientais e o impacto do capital na vida das pessoas é de uma ação avassaladora, principalmente afetando as mulheres e as crianças como seu grande alvo inicial. Afinal, são as mulheres que são responsáveis por todo o porvir, por toda ação de reprodução da vida e, com isso, com os impactos ambientais, com os desastres que ocorrem de uma forma bastante contínua, ainda mais com o crescimento da exploração mineral no país, a população fica doente rapidamente e cabe às mulheres, ainda, nesta construção ao longo dos nossos anos e da nossa história o cuidar. O cuidar da família, o cuidar das pessoas mais próximas, o cuidar da terra e esse ato de cuidar requer muito tempo e quando falamos de impactos ambientais, a gente está falando de impactos diretamente feito a mulheres. E isso pode ser pensado em uma escala bastante global também e generalizada, tanto no campo quanto na cidade, porque as mulheres são afetadas imediatamente por ações predadoras do capital mineral.

Nós, mulheres da periferia Como a ausência de políticas públicas afeta essas mulheres? 

Karina Martins: Além das doenças que acometem a população geral, e esse ato do cuidado, a ausência das políticas públicas no serviço de saúde, e isso vai demandar um tempo e uma logística até mesmo de muitos casos ter que se deslocar para outros territórios para conseguir cuidar das pessoas e tratar dessas doenças, a gente não pode esquecer que os crimes ambientais e os seus grandes empreendimentos trazem um impacto direto à relação das mulheres no sentido da violência permanente. Afinal, estamos falando de grandes empreendimentos, no qual grande parte do seu público é masculino e as mulheres acabam sendo alvo de ações como o feminicídio que a gente vem assistindo uma crescente.

Nós, mulheres da periferia Como os crimes ambientais afetam as meninas nessas regiões? 

Karina Martins: Outra questão que nos preocupa de maneira permanente é a questão da infância, uma vez que as crianças vão ter contato com o modelo mineral e com toda uma degradação do meio ambiente, diante de todo um processo de poluição e sua infância interrompida, uma vez que elas não vão poder mais banhar no rio que elas sempre banhavam, não vão poder andar livremente nas ruas como faziam antes, porque a ação de violência nos municípios aumenta de maneira assustadora. E não podemos esquecer que as crianças acabam sendo alvo, inclusive, da prostituição infantil e do tráfico de crianças. Não existem dados concretos acerca disso ou um instituto que estude isso e já aponta para nós esses dados de maneira mais elaborada, mas isso a gente acaba tendo acesso ao vivenciar os territórios, ao escutar os relatos das pessoas que moram naquela região, o quanto a vida delas está em jogo, a vida de seus familiares e de suas crianças está em jogo nesse modelo minerado.

Serviço
Lançamento do documentário “Tinha gosto de perfume – Barcarena e os crimes ambientais impunes”
Data: 5/6
Horário: das 19h às 20h30
Local: Casa do Baixo Augusta
Endereço: Rua Rego Freitas, 533
Entrada gratuita

Temas:

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