Keyty Medeiros é jornalista, tem 26 anos, é bissexual mora zona sul da cidade São Paulo. Seu relato faz parte do especial “Ser LGBT+ na periferia“. Clique aqui para ler o conteúdo completo

Imaginem que minha família e eu, assim como muitos outros moradores da rua vivemos ali há mais de 20 anos e já somos conhecidos nas beiradas extremas de São Paulo e Embu das Artes, lá pertinho do famoso Jardim Irene, de Cafú, na zona sul da cidade de São Paulo. Aos 12 anos, minhas principais amigas do bairro, que eram magras, tinham longos cabelos cumpridos e eram super femininas, faziam sucesso na escola e já namoravam. E eu, mais nerd e gordinha do que a maioria delas, e ainda por cima, a única a estudar em colégio religioso, sequer tinha beijado alguém. Além de ser proibido pela Igreja e ser “errado”, ninguém parecia se interessar pela mocinha estranha que eu era aos 12 anos.

Com o passar do tempo eu trocava de grupos de amigas, andava com novas colegas para cima e para baixo, de braços dados e os mesmos vizinhos que me viam com tantas amigas, nunca se conformavam por não me ver acompanhada de nenhum namorado. Esse incômodo aumentou depois que menstruei, aos 11 anos, e meu corpo deixou de ser só meu e passou a ser cobiçado pelos adolescentes e adultos que frequentavam as biqueiras e os bares do bairro. Quando eu ouvia alguém mexendo comigo, comentando sobre meu corpo ou me olhando de uma forma nojenta, eu não respondia e assim, aos poucos, deixei de ter um corpo adolescente em formação e passei a ter um corpo estranho, que doía e crescia desproporcionalmente, que era preciso esconder e proteger.

E foi aí que a boca mexeriqueira da vizinhança entrou em ação. É claro que com aquele troca troca de amigas, nenhum namorado ao redor e aquela cara feia quando os meninos mexiam comigo, eu não podia ser normal… (Até hoje lembro dessa sequência de acontecimentos e imagino uma voz irônica dizendo: você quer seu espaço para ser diferente, bebê? – e parece estranhamente real). Alguém logo concluiu: a Keyty é sapatão!

E não demorou muito para que essa conversa que eu nem sabia que existia, chegasse aos ouvidos do meu pai, justamente no bar onde ele mais arranjava briga. E é claro que ele arrumou uma grande confusão com quem fez esse comentário nesta noite. Mas não pelo motivo que vocês podem imaginar. Quando chegou em casa, eu estava lá e minha mãe também. Ao discutir qualquer coisa da vida, da casa ou de alguma amiga que meus pais não gostavam, meu pai disse, enojado, que alguém no bar tinha me chamado de sapatão. Me questionava isso e queria que eu desmentisse. Eu fiquei completamente calada por alguns segundos.

Foi a primeira vez que eu ouvi alguém chamando uma mulher lésbica de sapatão e a cara do meu pai indicava que devia ser uma das coisas mais detestáveis do mundo.

Repare bem: ninguém nunca havia me perguntado nada ou perguntado a alguém que conviveu comigo aos 12, 14 anos. Deduziram coisas e contaram para o meu pai como se eu estivesse cometendo um crime – que eu sequer fazia ideia do que era. Eu retruquei perguntando quem tinha dito isso, nos desentendemos mais um pouco e mudamos de assunto. Nunca mais o assunto voltou à mesa e só 10 anos depois é que voltamos a falar disso – e nunca sobre esse episódio.

Neste meio tempo, muita coisa aconteceu. Me mudei de cidade e fui fazer graduação no interior de São Paulo – e de fato descobri que me sentia atraída sexual e emocionalmente por mulheres, quase uma década depois dos meus vizinhos incutirem a mim um rótulo que não sustento – até porque, ao contrário das apostas, sou bissexual e não lésbica. Voltei a morar com meus pais depois de cinco anos no interior e mesmo naquele tempo, nunca levei ninguém para casa. Por uma questão de respeito e longura [distância]. São muitos ônibus e metrôs em trajetos picados para chegar em casa e, chegando, garanto que não eu não teria energia suficiente para um bom sexo casual – quem dirá desviar das perguntas da família.

Uma situação, em particular, ilustra bem essa invasão da vida sexual privada de um corpo feminino tratado como público nas periferias de São Paulo. Pelo menos, foi assim quando eu fui alvo de questionamentos mais abertos e inconvenientes por parte dos vizinhos. Afinal, é evidente que mesmo aos 26 anos de idade, crescida, formada e pagando minhas contas, as especulações continuem. Elas continuam e se atualizam em relações com conhecidos distantes, que te perguntam sobre sua vida enquanto fazem a rota do ponto de ônibus para casa juntos, por exemplo.

E veja bem, não há nada de errado em perguntar como anda a vida de uma pessoa que não se vê há anos, mas essas constantes especulações sobre a minha vida afetiva me retraíram ao ponto de evitar conversas muito pessoais, restringindo aos assuntos ao campo profissional e, com isso, aumentando ainda mais as suspeitas sobre a minha lesbianidade. E eu, de novo, sem me dar conta que era exatamente essa a razão pela qual eu me reservava ainda mais nessas conversas de tempo comum com as pessoas do bairro, instintivamente, só não respondia ou mudava o foco da conversa. E o ciclo de auto enganações e coisas não ditas não tinha fim.

Seguiu assim até a noite em que um antigo vizinho e amigo do meu pai, alguém com seus 45 anos, me abordou na rua para perguntar coisas que, aparentemente, precisava muito saber. Já passava das 23h e T. me viu virando a esquina com um pouco de pressa, desviando de uma moto em alta velocidade. Eu, que já fui roubada praticamente naquela mesma situação, estava alerta e preocupada. Passado esse susto inicial, passei por T. e ele me cumprimentou com um “boa noite” seguido de um “vi que você estava com medo ali, né? mas não precisa ter medo não, ninguém aqui faz mal com os moradores aqui da rua”, disse. Sim, T. está ou já esteve envolvido com drogas e durante a minha adolescência, eu nunca sabia quando ele aparecia ou desaparecia do bairro, nem porquê. Só o via nos bares quando precisava buscar meu pai ou quando ele vinha até a oficina e onde eu sempre o cumprimentava com o meu costumeiro e sem sal “bom dia”, “boa noite”.

Eu respondi qualquer coisa concordando com o que ele disse porque só queria ir para casa. Já era bem tarde, a rua estava escura e eu bastante cansada. Mas ele continuou falando sobre segurança e como o bairro andava perigoso meses antes, mas que agora as coisas estavam voltando ao lugar e etc, etc. Até que ele fez a conexão mais absurda que eu já pude ouvir em uma conversa entre pessoas sóbrias:

Eu sei que você se preocupa porque você é lésbica, não é Keyty? Pode falar…

Eu fiquei completamente sem reação. De novo. Isso é pergunta que se faça a quem não se conhece?! Eu queria muito saber de onde vem essa autorização que as pessoas que te viram um bocado de vezes na vida e que não sabem nada sobre você, mas que pensam que sabem, acham que têm para determinar x ou y coisa sobre você. Eu queria mesmo. Mas naquele momento eu só queria mandar T. à merda e ir para minha casa. Tive vontade de cuspir na cara dele e mandá-lo ao inferno no mesmo instante, mas eu nem sei o quê T. anda fazendo e com quem ele ainda tem ou não contatos. E pior, sei exatamente porquê se manda bater, estuprar ou matar lésbicas e bissexuais desobedientes a cada 19 horas nesse país. Só retruquei.

– O quê? – respondi com a cara de interrogação mais caricata que consegui. Eu queria mostrar o quanto aquela associação tinha sido idiota sem gastar palavra, mas não conseguiria e já sabia disso.

Ele repetiu e eu repeti. Por fim, disse algo como “não entendi o que esse assunto tem a ver com a segurança e o medo da moto”. Foi o que bastou para que ele percebesse que passou da linha. Pediu desculpas várias vezes e tentou consertar com:

  – Eu não tenho nada contra. Tenho até amigas que são! Se quiser, posso até te apresentar algumas pessoas.

 

Keyty Medeiros aos 18 anos.

Crédito: Amanda Fonseca

Aquele inferno só piorava. É óbvio que ele poderia me apresentar outras pessoas! E é claro que na cabeça dele, eu só poderia ser lésbica. Bissexual nem pensar! Ele ia se enrolando mais ainda e a minha cara indignada só aumentava, mas eu não conseguia elaborar qualquer coisa que me tirasse daquela situação sem ser excessivamente agressiva ou grossa – e fico me perguntando, até hoje, quem afinal eu estava protegendo com essa atitude: a mim, a meu corpo ou à minha mente ou a ele, da minha estupidez diante do absurdo daquela situação.

Eu sabia bem que não poderia culpá-lo por pensar assim, porque existem ainda muitos estereótipos sobre mulheres lésbicas e bissexuais que perduram por aí, em especial, nas camadas que mais consomem informações sobre saúde sexual, relações afetivas e expectativas de gênero por meio da TV, da igreja ou dos bares. Mas essa conversa non sense era tão violenta para mim como eu poderia ser se se eu resolvesse responder T. como gostaria e deveria, contando com aquele grau de invasão de privacidade. Se tem uma coisa que eu prezo, essa coisa é espaço.

O fato é que voltei pra casa às pressas, aceitando mal e porcamente os pedidos de desculpas feitos por ele e chorei por horas a fio no colo da minha mãe, me sentindo humilhada, invadida, fraca e desrespeitada na porta da minha casa por um desconhecido que acha que o fato de ter me visto crescer de longe, no bairro e por conhecer meu pai há anos, automaticamente dá direito a deduzir coisas sobre mim, pegando liberdades e espaços que nunca autorizei, que nunca dei para que fossem objeto de especulação.

Meu corpo e minha vida, naquele bairro que já foi íntimo e que há mais de cinco anos me era quase estranho, nunca foram meus ali, desde os meus primeiros anos.

Parte dessa vida à mostra, chupada pelas bocas da vizinhança faminta por novidades, foi alimentada pela própria relação “aberta” e “franca” que meu pai, hoje, ex-alcoólatra, tinha com os amigos de bares – aqueles mesmos que desejavam meu corpo e que estranhamente não o aceitam desejando outros corpos de mulher, ignorando seus galanteios, ignorando seus olhares e gestos. Neste tempo, nossa vida era muito exposta. Meu pai nos bares com suas brigas e confusões, eu na rua desde cedo tentando contê-lo ou na casa de amigas e minha mãe fora, por vários dias da semana, para sustentar nossa vida. Éramos como uma família desarticulada que permanecia unida e que assim como as outras famílias, chamava a atenção.

É importante dizer também que na minha rua existem, pelo menos, uma lésbica e um gay – irmãos, inclusive, não assumidos para os pais, apenas para amigos e conhecidos, até onde sei. O que faz com que os pais continuem ouvindo de terceiros a respeito da sexualidade dos filhos e a partir daí, os questionem muitas vezes de forma despreparada e com isso, os constranjam. Não é fácil falar abertamente sobre este assunto em muitas famílias e é ainda mais difícil acolher a resposta em lares pouco estruturados ou com poucas referências pessoais disponíveis. Somos os três representantes do arco-íris na minha rua – que eu saiba, repito. E certamente estamos entre as figuras mais estranhas do bairro – aquelas que parecem não ter vida privada, não ter relacionamentos afetivos e que, além de tudo, têm jeitos desviados da expectativa de gênero. Uma lésbica masculinizada, um rapaz franzino afemininado e uma bissexual que um dia parece um menino e no outro, uma mulher.

Eu não aguentei essa familiaridade forçada. Essa falsa preocupação, esse disse me disse, essas especulações. E depois desse episódio com T., me vi tão agredida que foi inevitável pensar em sair dali e efetivamente fazer algo a respeito. Antes disso, tratei de trazer à tona a situação com meus pais e finalmente revelar para o meu pai a minha bissexualidade. Minha mãe nunca fez muita questão do assunto vida afetiva e depois que saí do armário para ela, pouca coisa mudou.

Meu pai, um nordestino de quase 60 anos, que mal sabe ler e vive colado na TV, de primeira, não soube reagir, mas quando me mostrei preocupada com uma possível falta de apoio se algo de ruim acontecesse por namorar uma mulher (afinal, estamos em tempos muito estranhos), ele recuou e deixou claro que nada disso realmente importava para ele. “Dizem que eu sou chato e eu sou mesmo. E acho ruim quem quer me mudar. Se eu não quero que me mudem eu sendo assim chato, também não quero que te mudem por você ser assim. Isso não importa”, meu pai respondeu – e eu sei que, por hora, esse é o melhor que ele pode dar. Ainda não me sinto totalmente confortável para levar uma namorada para a casa onde cresci, mas pelo menos já não me sinto fazendo alguma coisa errada – ainda que parte da família finja não saber ou ignore e invisibilize mesmo. Meus pais sabem e nada mudou.

É evidente que estudos, trabalho, tempo de deslocamento e privacidade foram as coisas que me motivaram a me mudar para um outro bairro. Mas também devo confessar que existia um desejo grande me livrar um pouco dessa sensação de constante vigilância e julgamento de olhares que não pedi e que parecem inevitáveis aos olhos de quem te viu crescer de longe, e que apenas acha que está conectado com você, mas não está. Essas perguntas indevidas me fizeram escolher voltar a morar com desconhecidos em São Paulo a morar no bairro onde cresci. Não aguento mais viver no armário e ainda não sei como sair naquele lugar sem causar fissuras que podem custar muito mais aos meus pais do que a mim.

O conflito de entrar e sair do armário a todo momento é um exercício estressante para qualquer membro da comunidade LGBTQIA+ e é especialmente horroroso para as mulheres que, com seus corpos públicos e comunitários, se dispõem a amar outras mulheres. É um insulto para ambientes tão masculinizados como os bares, tão castradores como as igrejas e tão ficcionais como as novelas, em especial nos bairros mais distantes, onde não chegam mais do que algumas escolas espalhadas e um ou outro CDHU, nenhum CEU ou Casa de Cultura há menos de 30 minutos de distância ou de uma ou duas conduções. O armário é solitário e doloroso. Todo mundo te olha de dentro para fora, dando nomes e apontando dedos – na tentativa de te aprisionar dentro ou de te libertar antes do tempo. E é ainda mais desafiador voltar para o armário quando já se saiu dele. E mais: é importante se perguntar para quê voltar? Por que algumas pessoas não sabem lidar com a sua curiosidade e não medem suas línguas?

Eu cansei. Não quero mais entrar e sair do armário sempre que entrar e sair de casa, nem dar explicações segurando minhas próprias chaves nas mãos.

 

 

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