Segunda para terça-feira. São 0h14 da noite e eu acabei de lavar a louça. E não é uma louça de um copo de leite e um prato de quem, no auge de sua imaturidade de 30 anos, moraria sozinho. Lavei pratos, garfos, copos, que alimentaram, no mínimo, 4 pessoas. Esfreguei a frigideira que estava encardida – sabe arear panelas? Uma tarefa bem cansativa e desgastante – além de lavar uma panela de pressão. Esse é o preço para que alguém cozinhe para mim quando eu chego tarde.

Voltei do último dia de um curso de jornalismo cultural, com diversas ideias e orientações para escrita criativa, e sobre como o tédio é importante para a produção de textos mais inteligentes e inovadores. Mas eu não tenho tempo para ficar entediada. Estou lavando louças à meia noite.

Créditos: Eurritimia (Flickr/Creative Commons)

Créditos: Eurritimia (Flickr/Creative Commons)

Toda essa introdução caótica – e um pouco mal humorada – é pra dizer que eu vivo com um homem machista. Meu pai. Ele vai fazer 66 anos neste fim de semana. É um homem idoso, apesar de bem ativo, e foi educado em um tempo em que homens não faziam NUNCA os serviços domésticos. Além disso, é do signo de Touro, e isso significa que ele tem muita dificuldade com mudanças e é muito teimoso (sou a louca dos signos, sim!).

Entre ler sobre horóscopo e discutir novos formatos de jornalismo, eu posso afirmar hoje que sou uma mulher feminista. E isso tem sido uma construção, algo que nunca foi tão óbvio quanto parece. Me considero feminista porque sou uma das fundadoras coletivo Nós, mulheres da periferia e por meio dele reflito e compartilho informações sobre os problemas derivados das desigualdades de gênero.

Não sou uma feminista que, necessariamente, cumpre os estereótipos de participar de marchas, ou de ser acadêmica e discutir as teorias do campo (e estereótipos são sempre problemáticos), mas acredito que sendo eu mesma, enquanto dona de casa, profissional, companheira e amiga, posso influenciar discursos e narrativas, defendendo que nós mulheres não precisamos aceitar aquilo que a sociedade nos impõe.

Mas acontece que eu convivo com meu pai machista. E ele é um homem idoso. E, muitas vezes, nosso feminismo tem limites.

Desde pequena eu me indignava quando meu pai não enxugava o banheiro após o banho, e minha mãe pedia para que nós, eu e minha irmã, fossemos enxugá-lo. Mas, mesmo resmungando, éramos nós que tínhamos que fazer o trabalho que ele deixava para nós, meninas, crianças.

Não posso nominar anacronicamente que essa minha atitude era feminista. Mas eu sempre me incomodei com os privilégios do meu pai em casa. Mas ele era o grande provedor da nossa família, e cada um devia cumprir seu papel em nosso lar.

Já faz onze meses que minha mãe faleceu, e, desde então, a maioria das atividades domésticas da casa são de minha responsabilidade. Hoje eu vejo melhor o quanto eu também, exercendo meu papel de filha, estudante, profissional que trabalha fora, de jovem que viaja, sai com os amigos no fim de semana, também tinha privilégios em relação a ela (mas esse é assunto para outro texto, talvez).

Quando cheguei do curso, meu pai, solidário à minha tarefa, ainda comentou: “Eu ia lavar a louça, mas fiquei com preguiça. Comecei a assistir ‘Bem amigos’…”. “Tudo bem, eu lavo”, respondi, como em todas as outras vezes. Ele sempre diz que ia lavar, mas sempre deixa a tarefa para mim.

Quando falamos de machismo, muitos homens mais jovens costumam dizer que não consideram que o sejam, reconhecem as desigualdades, mas alegam que apoiam as nossas causas, mas a verdade é que eles não têm ideia do todo do qual eles fazem parte. E a culpa não é (toda) deles, é de toda a estrutura de nossa sociedade patriarcal.

Quando meu pai ignora ou então adia a ação de lavar os pratos, inconscientemente ele reafirma que aquela não é sua função dentro de casa. Mesmo aposentado, demonstrando muitas vezes estar entediado da rotina que anda levando, mesmo assim nem cogita que poderia me ajudar mais nas tarefas domésticas.

E para ele não importa se eu trabalho oito horas por dia, e passo quase quatro horas no transporte público. Se tenho duas graduações, um mestrado, falo línguas. A louça é minha, porque assim é que sempre foram as coisas.

Deveria queimar sutiãs, quebrar os copos? Revolução nem sempre é possível. Entender as limitações do meu pai, compreender o contexto de sua educação e que, sendo idoso (e taurino), é muito difícil exigir novas aprendizagens dele, além de saber que nós dois ainda estamos nos adaptando à dor e a todas as perdas que nosso luto nos trouxe, tem sido meu exercício de empatia (e paciência). E sem isso, não se chega a lugar nenhum, seja qual for a luta.

Tenho esperança no futuro, nas novas relações, em uma educação mais igualitária de nossas crianças, mas em relação ao meu pai, por todo o amor e gratidão que sinto, me reservo a ser livre para escolher lavar os pratos.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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Comentários

  1. “Quando meu pai ignora ou então adia a ação de lavar os pratos, inconscientemente ele reafirma que aquela não é sua função dentro de casa.” Da mesma maneira, quando você diz “tudo bem, eu lavo”, também está reafirmando sua suposta função. No fundo não te passa pela cabeça que a louça pode ficar para ele, no tempo dele, lavar. No seu inconsciente a louça é sua e se ele lavar significa um alívio da sua obrigação.

    Eu vi meu pai, que na época tinha 55 anos, em um momento de dor, mudar completamente sua atitude em relação as atividades domésticas. Então, eu acredito em mudanças e nós podemos/devemos ser agentes dela, basta nos livrarmos do nosso machismo.

  2. Ótima reflexão, Lívia! Me identifiquei muito com alguns trechos em especial. Quando vc considera, inclusive, a sua postura em relação a sua mãe quando ela estava presente… isso não é fácil de se fazer, até dói. Parabéns! A resistência é cotidiana.

  3. Até um tempo atrás vivi uma história semelhante.

    Cresci em uma família muito matriarcal e feminista, minha avó subia os morros da cidade pra bater na porta de homem que abusava da esposa e ameaça-los de denuncia enfrentando arma apontada pro rosto. Minha avó foi só uma das mulheres que sem saber que tinha nome disse sério que tipo de mulher eu devia ser, tenho orgulho de dizer que sou feminista de berço (não levem como ofensa quem passou pela desconstrução, entendo que a culpa é do sistema e eu mesma tenho ainda muito o que aprender.)

    Minha mãe e meu pai se separaram quando eu era muito nova, um bebê quase. Meu pai tá longe de ser o pai perfeito, era do tipo que me devolvia pra minha mãe ou me mandava pra a casa da mãe dele se eu ficasse doente. Mas pagava pensão e cumpria os dias de encontro. Nesses dias ele solteiro era obrigado a lavar, cozinhar, dar banho em criança. Mesmo que não fosse pela vontade dele a minha segunda referência também era de um homem participativo.

    Cresci assim, com o pai e mãe desconstruidões, que me deixavam usar roupa de menino, lutar, gostar de super heróis. Foi a infância perfeita, mas aí a infância acabou.

    Quando tinha 12 anos minha mãe se casou novamente. Como nunca vivi meus pais casados (entre si) e como eles sempre namoraram cresci sabendo que esse era un direito deles, nunca tive ciúmes. Mas a merda começou a rolar quando meu padrasto veio morar com a gente.

    Ele é bem mais velho que minha mãe, o que faz dele de outra geração, e é muito mais machista (e homofóbico, e racista, o pacote completo). Vi aos poucos ele mudar minha mãe. Primeiro era fazer com que ela arrumasse o prato dele, depois não ajudar nas tarefas de casa, chegou ao ponto de reclamar tanto sobre ela dirigir que ela deixou de dirigir, ficando dependente dele.

    Já me irrita ver minha mãe assim, mudando seu posicionamento, fazendo tudo ao contrário do que ela mesma me ensinou. Tento intervir, abrir o olho dela, colocar o assunto em pauta, mas ela sempre diz que é escolha dela tudo isso.

    Porém o que mais me irrita é que as escolhas dela me afetam. Vivemos brigando sobre a arrumação da casa, não acho justo ela fazer tudo sozinha, mas tambŕm acho o cúmulo do absurdo ser responsável pela bagunça dele. Quando vou lavar a louça lavo tuo (incluindo as panelas de onde saiu a comida que ele comeu) mas nao lavo o prato, os talheres e o copo dele. Quando vou colocar roupa pra lavar e estender também deixo as roupas dele lá mofando.

    Minha mãe fica irritada comigo, pq ela acaba tendo que fazer, já que ele não vai se mexer. Me sinto mal em não ser uma divisão justa, mas também não acho justo eu pagar pelas escolhas dela, já que ela sempre diz que sabe o que está acontecendo e aceita assi.

  4. Lívia, me dá sua mão. Estamos juntas. Eu não moro mais com meus pais, e hoje divido apto com um amigo.. só pra te dizer (e tbm desabafar que….) ele é bastante desconstruído já, é gay, estudioso de filosofia e um dos maiores leitores da bibliografia feminista, uma pessoa incrível que acompanha todos os debates importantes de nossa época sobre combate a todas formas de opressão, e tem uma visão de mundo bem parecida com a minha.. porém se nosso feminismo tem limites (o que eu concordo 100%) acredito que a desconstrução também tem. Tudo isso que mencionei a respeito dele não impediu que eu tenha que limpar o vaso sanitário toda vez que eu queira usar, pois está sempre sujo. Não impediu que eu tenha que esfregar o box do chuveiro frequentemente pois invariavelmente encontro resquícios de fezes (sim, fezes!) no piso e nas paredes (e não faço idéia de como isso é possível é tão comum!). Não impediu que eu tenha que lavar a louça, talheres ou copos toda vez antes de usá-los pois sempre encontro restos de alimentos grudados. Não impediu que eu sinta um cheiro de suor vindo do quarto dele. Não impediu que eu encontre catota de nariz grudada na pia da cozinha. Não impediu que eu tenha que retirar os alimentos vencidos ou estragados da geladeira ou da despensa pois ele não notou. Não impediu que ele utilize o banheiro para fazer xixi com as portas abertas. Não impediu que eu encontre pelos dele junto da minha escova de dentes. E acredito que ele tem agido assim pois ELE NÃO ENXERGA SUJEIRA COMO EU APRENDI A VER. E pq? Provavelmente porque eu fui orientada sobre limpeza com detalhes que foram poupados qdo chegou a vez dos meus irmãos por ex. E imagino que tenha sido assim com este amigo. Não é fácil.

  5. Sensacional o seu texto! Compartilho de tudo isso e de dificuldades semelhantes, mas com meu esposo, muito machista em relação à tarefas domésticas… É tão bom saber que não se está sozinha…. =)

  6. “…Nosso feminismo tem limites.” Essa frase preenche todos os meus dias. Querer lutar por uma sociedade mais justa, saber exatamente quando e onde vc esta sendo machista, mas continuar sendo mãe, querendo cuidar, achando como única via, demonstrar amor com atitudes de serviço. Eu entendo TAO bem essa frase. “…Nosso feminismo tem limites.” Infelizmente tem. Infelizmente nós ainda os impomos. Infelizmente essa é uma construção demorada, geracional. Posso dizer que seu pai é, como a maioria, um homem de sorte.

  7. Amiga, foda-se a louça! Não perca seus insights criativos. O feminismo não é para mudar teu pai e ele deixar de ser um folgado. É para VOCÊ deixar de achar que a louça é tua depois de um dia de cão e ainda perder energia e não produzir intelectualmente algo que você quer!

    Vou te dizer, ele está pouco se ferrando se isto prejudica sua carreira! Ele quer é ser cuidado como se fosse um bebezão.

    Vai por mim! Ele aprende rapidinho quando vir os bigatos na pia. E se ele for porco a ponto de não se importar, se joga e vai ter seu canto.

    Não duvido nada que você colabore financeiramente na sua casa. Então, diga se não MERECE que alguém cozinhe e cuide ao menos da higiene mínima do lar para continuar na sua batalha?

    O feminismo não existe para manter relações familiares abusivas disfarçadas de boa convivência não! Desejo a você muita força para sair desse ciclo que te aprisiona e NÃO VAI te ajudar crescer, muito menos garantirá sua segurança financeira e profissional.

    E antes que diga que não é fácil, digo que já passei por isso e afirmo que é muito, mas muito mais fácil e libertador do que você possa imaginar. Confie!

  8. Faz o que seu coração manda. Momento difícil de perda, de muito esforço pra retomar o prumo da vida, que com certeza será mais difícil pra ele do que pra vc. Com o tempo ele vai perceber estas coisas. Que vc não é a sua mãe, que não vai viver pra cuidar dele. Fica atenta nisso, mas vai com calma também. Daqui um tempo ele estará lavando a louça antes de vc chegar. Depois que minha mãe morreu, meu pai quase morreu de depressão. Minha irmã era pequena e eu já era mocinha. Caiu tudo em cima de mim. E eu nem tinha consciência do peso do papel da mulher. Ele foi melhorando, e percebeu sozinho que não era justo eu cuidar dele, das coisas dele. Com o tempo foi se apropriando das responsabilidades com a casa, com a louça, com a roupa, super mercado…. só cozinhar que ele nunca conseguiu. Ele era do tipo que não fazia nada em casa, mas era do tipo que queria ver a mim e a minha irmã tocando a nossa vida. Por amor de pai, ele quebrou na prática seus hábitos machistas. Hoje ele tem 89 anos com uma namorada a por mais de 20 anos. Ele mora sozinho e diz que não quer uma mulher pra cuidar dele, mas para fazer compania. Quando a namorada vá pra casa dele nos finais de semana, ele pede uma pizza, ou faz alguma coisa, mas não deixa ela cozinhar. Depois de perder minha mãe ele mudou muito. Pir um caminho difícil ele cresceu. E acha normal que meu marido cozinhe e cuide da casa. Beijo

  9. O que você me falou é o que eu vejo em todos os meus tios. Eu tenho muitos e eles são todos homens.
    Eu sinto raiva quando conversam – impoê – sobre isso.
    E sinto raiva quando vejo isso tão presente na igreja e em todo lugar que eu frequento que tem critianismo. É tão difícil eu ter direitos iguais de escolhas quanto dos garotos. Eu tento nao consumi-la e ficar entre minha fé, mas é como escalar uma montanhas de cacos de vidro. E quanto mais me alimento de sabedoria fora da fé, sou mal vista e contrafeita.
    O racionalismo irrita as pessoas, a verdade traz brigas dentro de casa e minha fé vai diminuindo… Todos distorcem o que Jesus disse na biblia e me pergunto ainda mais vezes porque estou aqui vivendo o cristianismo se os ensinamentos de Jesus nao existe na vida real.
    Amor entre os semelhantes e a verdade nos libertará.
    Carrego essas frases desde aos 7 anos e agora adulta… Vejo que nunca existiram. E que o mundo te ensina a ser ao contrário por maneiras horríveis.
    Estou tentando resistir, ser mais verdsdeira, porque eu devo isso a Jesus e o seu sacrificio por morrer pelas suas ideias.