Em Salvador (BA), coletivo cria rede social livre e colaborativa

“Eu sou porque nós somos”. A frase, que denota a potencialidade do sujeito que vive e luta coletivamente, é a livre tradução da expressão Ubuntu, com origem na língua Zulu. Mas desde o dia 10 de dezembro (Dia dos Direitos Humanos) Ubuntu é também sinônimo de uma inovadora rede social criada pelo coletivo baiano Desabafo Social. O espaço pretende ir além do entretenimento encontrado em redes convencionais, reunindo pessoas e organizações que tenham como foco os direitos humanos, no intuito de fortalecer  a participação política e social.

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Durante um ano e meio a Diretora de Inspiração e Fundadora do Desabafo Social, Monique Evelle, 21,  rodou sozinha a cidade de Salvador falando sobre Direitos Humanos para quem quisesse ouvir. A situação mudou quando ouviu um conselho e resolveu transformar o projeto em uma rede. “Sabemos que a situação de muitos outros projetos é difícil. Falta comunicação, sinergia e meios para que possam crescer. O Ubuntu nasce para diminuir essas dificuldades criando espaços colaborativos”, explica Monique.

Para Monique, em redes convencionais, como o Facebook, o espaço se limita às condições financeiras dos coletivos. “Temos que pagar para que uma publicação ganhe mais visibilidade e seja um viral. É uma disputa por território e se você tiver como financiar, você ganha. Nem todos coletivos podem fazer isso”.

A jovem aponta, ainda, que as lutas contra as desigualdades, sobretudo de gênero e raça, sempre existiram,  as ferramentas digitais apenas as impulsionaram e trouxeram a ressonância das lutas cotidianas. “Acredito muito no potencial das mídias sociais e das campanhas de hashtags que tomaram conta em 2015. Mas temos que ficar atentas e atentos nos lugares onde as hashtags não chegam. Por isso, precisamos alinhar nossos envolvimentos nas redes com nossa presença nas ruas”.

Além da rede social facilitar a organização e o desenvolvimento de iniciativas na área de Educação, Comunicação Relações Raciais, Direitos da Infância e da Juventude, Gênero e áreas afins, a rede é aberta para qualquer pessoa. O Ubuntu serve para conectar pessoas como qualquer outra rede social, porém com foco na colaboração e multiplicação de ideias. A rede social de aprendizagem colaborativa permite ainda a cocriação de conteúdo através da wiki; biblioteca Online a partir dos links úteis; divisão de tarefas e calendário.

Saiba mais na entrevista abaixo com a fundadora do Desabafo social, Monique Evelle.

Monique Evelle | Fundadora do Desabafo Social, em Salvador (BA)

Monique Evelle | Fundadora do Desabafo Social, em Salvador (BA)

Nós, mulheres da periferia: Você percorreu a cidade de Salvador ouvindo muitos relatos e, então, depois criaram o Ubuntu. Quais são hoje os principais desafios dos coletivos concentrados nas periferias/subúrbio de Salvador?

Monique Evelle: Acredito que seja oferecer apoio para a causa que os coletivos defendem. Há uma certa angústia dos coletivos em não ter como começar. Essa prisão de só começar quando tiver financiamento talvez atrase algumas ações que poderiam ser realizadas e ampliadas independentes do dinheiro. Mas claro que não dá para realizar e multiplicar ações sem nenhum subsídio logístico e financeiro, ainda mais se você não é pessoa jurídica. Outro ponto que pode ser considerado um desafio é o engajamento de pessoas para a causa. O que é muito difícil. Eu até hoje não sei como mobilizar mais pessoas para as ações do Desabafo Social. Mas tudo é uma questão de tempo, estratégias e resultados. Testando que a gente vai saber se dará certo ou não.

Nós, mulheres da periferia: O que vocês, do Desabafo Social, acreditam que ainda falta no Facebook ou outras redes que os impulsionaram a criar um novo espaço?

Monique Evelle: Nós queríamos um espaço totalmente livre. O Facebook e outras redes sociais são empresas privadas, que se apropriam dos nossos dados pessoais e informações publicadas nas redes para vender anúncios. As redes sociais existentes coletam dados e impõem restrições. Para confirmar o que estou dizendo, é só ler o Termo de Uso, o que quase ninguém faz. Já a rede social Ubuntu traz a ideia de liberdade. É você publicar conteúdo sabendo que não está sendo vigiado e que seus dados não serão vendidos para empresas privadas. Além disso, temos a perspectiva de crowdsourcing (criação de ações e soluções a partir de conhecimentos coletivos) com o crowdlearning (espaços com pessoas interessadas no mesmo assunto aprendendo e compartilhando saberes). Como o Ubuntu é software livre, qualquer pessoa poderá colaborar para melhorar e atualizar a rede social.

Nós, mulheres da periferia: Quais são os desafios que coletivos/movimentos encontram em redes convencionais, como Facebook, que ainda podem dificultar o trabalho?

Monique Evelle: Ao entrar no Facebook não perdemos tempo lendo o Termo de Uso, apenas clicamos em aceito e concordo. Logo, não ficamos cientes da vigilância e da retirada de conteúdos sem a gente perceber. O alcance das publicações diminuíram assim que surgiu os posts patrocinados, ou seja, temos que pagar para que uma publicação ganhe mais visibilidade e seja um viral. É uma disputa por território e, se você tiver como financiar, você ganha. Nem todos coletivos podem fazer isso.

Nós, mulheres da periferia: Como será a manutenção e sustentabilidade da rede Ubuntu?

Monique Evelle: Para garantir a manutenção , contamos com o apoio de voluntárias e voluntários que utilizem e saibam programar algumas aplicações de software livre, como é o caso do Ubuntu. Iremos ampliar e fortalecer a discussão sobre a importância de ocupar espaços colaborativos e livres. Os resultados dessas discussões será a sustentabilidade da rede social, até porque serão os usuários que irão decidir isso. Se não houver pessoas ocupando, não existirá “eu sou porque nós somos” (Ubuntu). Pensamos também em lançar uma campanha de financiamento coletivo para termos ao menos duas pessoas que saibam programar e desenvolver softawares disponíveis para o Ubuntu.

Nós, mulheres da periferia: Você, como mulher negra, da periferia de Salvador, acha que as chamadas “ferramentas digitais” podem colaborar para a luta tripla, que envolve classe social, machismo e racismo? Como as juventudes podem atravessar esse meio digital e tornar essa luta efetiva?

Monique Evelle: As lutas contra desigualdades, sobretudo de gênero e raça, sempre existiram. As ferramentas digitais apenas impulsionaram e trouxeram a ressonância das lutas cotidianas. Acredito muito no potencial das mídias sociais e das campanhas de hashtags que tomaram conta em 2015. Mas temos que ficar atentas e atentos nos lugares onde as hashtags não chegam. Por isso precisamos alinhar nossos envolvimentos nas redes com nossa presença nas ruas.

 

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