Nos braços de sua mãe, a menina de 5 anos mantinha os olhos atentos para a multidão de gente que descia a Rua Augusta (centro de SP). A pequena e a mãe, Renata Santos, atravessaram a cidade, indo de Itaquaquecetuba (Grande SP) à Av. Paulista, para também pedir justiça por Marielle Franco, em um ato que somou cerca de 2 mil pessoas no dia 14 de abril, quando marcou um mês da morte da vereadora do PSol no Rio de Janeiro.

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“Eu vim com a minha filha justamente para mostrar uma outra história. O genocídio do povo preto tem que parar e nós temos que ensinar as crianças a lutar. Eu dei uma aula para ela sobre o que está acontecendo.  Não é nos livros das escolas, mas é com as nossas lutas que ela vai acabar aprendendo”, contou Renata.

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O silêncio em torno da brutal morte de Marielle e também de seu motorista, Anderson Gomes, uniu diversas organizações e coletivos do movimento negro, entidades mistas e pessoas independentes na campanha #3oDiasPorMarielle, que, além de exigir justiça por Marielle, pede também um basta ao genocídio da população negra no Brasil e expõe os motivos pelos quais são contra a intervenção militar no estado do Rio.

“Marielle não foi a última. Cerca de 40 pessoas negras e periféricas já foram executadas depois de Marielle. Ao contrário do que a mídia golpista fala, a intervenção militar aumentou a violência no Rio de Janeiro nesses últimos meses, deixando um novo rastro de corpos negros pelo caminho, como foi o caso de Amarildo, Cláudia Ferreira e agora com o assassinato dos cinco jovens em Maricá, que também eram militantes da luta antirracista”, explica Juliana Gonçalves, uma das articuladoras da Campanha.

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Renata Santos e sua filha durante o Ato “Quem Matou Marielle – um mês do luto à luta”/ Jéssica Moreira

Dando continuidade às atividades que integram a Campanha, na próxima sexta-feira (27), os integrantes da articulação irão realizar uma mobilização virtual para explicar o que é o genocídio contra os negros no Brasil e por que é importante contextualizar esta questão para compreender as desigualdades do país.

No dia 5 de maio (sábado), acontece também o Seminário Justiça por Marielle e Anderson, Contra a Intervenção Militar e o Genocídio Negro , durante a 3ª Feira Nacional da Reforma Agrária, no Parque da Água Branca (zona oeste de SP), onde será realizada uma análise do atual momento político brasileiro tendo em vista as questões de raça, gênero e classe.

Ou seja, como as problemáticas da sociedade brasileira são intensificadas quando se é mulher, negra ou negro e pobre. O dossiê “A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil” mostra que, “no Brasil, os assassinatos de mulheres negras tiveram um aumento de 54.2% em 10 anos (2002-2013). No mesmo período, houve redução de 9.3% dos assassinatos de mulheres brancas. No período 2011-2013, 16 mulheres morreram assassinadas por dia, 488 por mês, 5.860 por ano. 45% eram mulheres jovens (10 a 29 anos)”.

“A violência realizada contra Marielle e Anderson faz parte de como o estado brasileiro quer silenciar os lutadores e todos aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e humana, como fazia Marielle”, aponta nota da Campanha.

“É impossível não se enxergar em Marielle”

Andreia Alves e Neon Cunha e Ato “Quem Matou Marielle – um mês do luto à luta”/ Jéssica Moreira

“Sou  uma mulher negra, transgênero, ameríndia e pensar em Marielle é pensar em uma mulher que interseccionou de forma responsável  e consistente as inúmeras opressões. Uma mulher que leva o discurso para a periferia sobre pessoas trans e não-binárias, é impossível não se envolver e não se enxergar. Mais do que na morte, mas na luta e no processo de enfrentamento feito por Marielle”. Neon Cunha , moradora de São Bernardo do Campo (Grande ABC)

” A importância de estar na rua é imensa, porque é uma maneira da gente ampliar a nossa voz. Quando está todo mundo junto é mais difícil uma bala nos parar. Eu acredito muito nesse movimento de rua, ocupar a cidade, e ampliar nossa voz, que hoje é única: cobrar justiça por Marielle. Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle? Foi muito revoltante o que aconteceu, um pouco de nós morre com a Marielle, mas um tanto da Marielle vive com a gente, quando a gente faz esse tipo de movimento cobrando por justiça. E não podemos enfraquecer. Marielle era uma mulher negra, mãe, periférica, lésbica, assim como eu, então eu também sou essa mulher”. Andreia Alves, moradora da zona norte de SP, integrante da Marcha das Mulheres Negras de SP

Gabriela de Souza durante o Ato “Quem Matou Marielle – um mês do luto à luta”/ Jéssica Moreira

“Eu estou descobrindo agora o poder de sair pra rua e de lutar, mas, desde quando eu comecei a fazer isso  eu não consigo explicar a importância, é só vindo para a rua e sentindo mesmo , intervindo, é muito importante, porque é uma luta que é minha também”. Gabriela de Souza, de Guaianazes (extremo leste de SP)

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