Por Mayara Penina | 19/02/2016

Eu sou mãe e sei muito bem o que é ter todas as obrigações da maternidade impostas a mim de forma natural, enquanto vejo confetes ao pai do meu filho, meu companheiro, quando não faz nada além de sua obrigação. Porque, afinal, ele ‘me ajuda’, ele é incrível pois “fica com o filho para mãe poder sair e trabalhar”. Ah, vá! Ou seja, a maternidade, em meu caso, é obrigação, para o pai do meu filho é facultativa.

Na quarta-feira (17/2) postamos aqui sobre a nova brincadeira do Facebook, o “Desafio da Maternidade”. A corrente consiste em compartilhar fotos que demonstrem a felicidade que a maternidade representa para as mulheres, além de marcar e “desafiar” outras amigas para que façam o mesmo.

Veja aqui o depoimento da atriz Tayla Fernandes, de São Miguel Paulista (zona leste da capital de SP) sobre o desafio. “Mas resumindo, eu ia às consultas, me olhavam como se eu fosse uma mutante, pegava ônibus, só ouvia buchicho, na escola me tratavam feito lixo, meus pais só ouviam merda, me criaram mal, coitados”, escreveu ela, sobre quando estava grávida na adolescência.

No começo desta semana, a blogueira Isabela Kanupp teve a brilhante ideia de cobrar que os pais de seus filhos também assumissem responsabilidade pelas crianças, lançando a hashtag #desafiodapaternidade

Desafio mais que justo, pois dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontam que há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento!. O Estado do Rio lidera o ranking, com 677.676 crianças sem filiação completa, seguido por São Paulo, com 663.375 crianças com pai desconhecido.

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Agora, eu como mulher da periferia, vou propor alguns desafios

Te desafio a não culpabilizar as mulheres por filhos não planejados;

Desafio os portais de comunicação a pararem de dar manchete para homens que cuidam sozinho dos filhos. Há milhões de mulheres fazendo isso todos os dias, e eles não estão na home dos sites;

Meu desafio é para que você, ao ver uma criança fazendo algo supostamente errado, não pergunte onde está a mãe. Ela também tem um pai responsável por ela;

Desafio também as empresas e gestores para que tenham um olhar mais humano para pais que peçam para sair mais cedo para ir à reunião da escola ou levar o filho ao médico;

Desafio os médicos e recepcionistas a chamarem também “O pai do Joaquim” e não só a mãe;

Meu desafio vai para você, que julga a mãe que não amamentou, e não olha o entorno , em que ela não teve apoio e não conseguiu continuar sozinha.

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Desafio você, que julga as mulheres que tiveram filhos adolescentes e vocês que fazem campanha de conscientização que não esqueçam também os pais adolescentes;

Desafio você, que não mora com seu filho, a deixar de ser pai em rede social e começar a dividir realmente a grande jornada que é cuidar de uma criança.

Desafio vocês, pais, que parem de se eximir de suas responsabilidade com desculpa de que “mãe é mãe”;

No mais, não deixe de acompanhar a hastag #DesafiodaMaternidade no Facebook

Leia mais: Conheça o livro  “Marcela – pelo outra metade da árvore”, da escritora Luciene Santos, moradora do bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo. O livro leva o nome de sua filha e conta sua experiência pessoal e relatos de outras histórias de mães e filhos que são abandonados pelos pais

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Mayara Penina é jornalista, tem 25 anos, é mãe do pequeno Joaquim de três e é integrante do Nós, Mulheres da Periferia.

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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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