Eu lembro do dia em que fui comprar um tênis com meu pai, nessas lojas populares em Suzano. Eu queria um Nike, na escola todo mundo tinha Nike. Meu pai se recusou a pagar absurdos num tênis e eu, esperneando, escolhi um Kolosh pra experimentar, o que cabia perfeitamente no pé e também no orçamento. Mas sabe como é adolescente. Era choro e briga e discussão toda vez que íamos às compras. O que me deixa feliz, analisando tudo isso hoje, é que meu pai nunca se submeteu a pagar por coisas que não podíamos comprar por puro capricho meu – mesmo eu sendo a pessoa mais rude, jogando na cara dele que “se a minha mãe tivesse viva ela compraria”. É por isso que eu aprendi a esperar a minha vez. Fui comprar o meu primeiro Nike com 18 anos, quando já estava trabalhando. Gastei quase todo o meu salário no Nike que, inclusive, ainda tenho e uso raramente. Foi o único Nike que tive na vida.

Crédito: arquivo pessoal

Crédito: arquivo pessoal

Assim como o Nike, outras tantas coisas nessa ~minha fase adulta~ tive que esperar um tempo necessário para tê-las com os meus próprios esforços. Uma delas é a viagem ao Canadá. Quem está mais próximo de mim sabe que eu to extremamente ansiosa e o quanto eu economizei pra isso. Estou há um ano juntando grana, um ano inteiro deixando de sair, comprar uma roupa que eu queria, um celular mais novinho e por-aí-vai. Parece bobagem, mas pra gente aqui desse lado da ponte a coisa é difícil. Você tem de escolher uma coisa ou outra, isso eu consigo comprar agora, aquilo não. Aqui em casa ninguém nunca saiu do país, ninguém nunca teve grana pra bancar um rolê pelo exterior. Meu pai não pôde e jamais o culpei por isso. Eu fico é feliz de mostrar pra ele o quanto estou dando duro. Ele está orgulhoso e eu sei disso. É o Nike da vez. E outros Nikes surgirão.

Quem é da minha turma periférica-classe-média manja do que eu falo, e está longe de ser coitadismo. É trabalhoso? É. É difícil? É. Mas eu quando eu estiver lá no avião, no mesmo lugar que bacana tá tão acostumado a frequentar, essa minha felicidade vai multiplicar. Na próxima, meu pai, o cara que fez Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e trabalhou a vida toda em máquina moldando o pote de manteiga que foi pra um monte de mesa, vai estar lá também. E tenho dito.

Tamiris Gomes tem 25 anos, é jornalista e moradora da cidade de Poá, região metropolitana de São Paulo

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