Antes de se tornar mulher, cada uma de nós é, foi menina. E, mesmo sem entender muito bem, passamos por diversos rituais até que a palavra mulher finalmente passe a fazer parte de nosso vocabulário. É curioso. Até hoje, aos 26 anos, eu ainda me pego dizendo “eu sou uma menina…” e a garotinha que existe em mim, ainda com medo, se confunde com a mulher que vai nascendo no espelho. 

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Dia Internacional da Menina | crédito: Cristiano Medeiros Dalbem / Flcikr

Dia Internacional da Menina | crédito: Cristiano Medeiros Dalbem / Flcikr

Desde as bonecas embrulhadas em papel dourado até a chegada da menstruação, foram nos ditando tantas regras que aquilo que era para ser um processo bonito e cheio de descobertas, acabou se tornando um caminho dolorido e completo de ordens sempre vindas dos outros.

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Na infância, quem de nós nunca ouviu as famosas frases “Comporte-se como menina”, “Fecha a perna”, “Menina não corre igual moleque”, “Pipa e bola são brinquedos de menino”, “Você não pode sair na rua”. Frases tão curtas que trouxeram uma potência tão grande a ponto de, alguma maneira, tirar nossa força enquanto mulheres que viríamos a ser. 

Depois, na adolescência, foi a hora de ouvir que o processo de transformação do meu próprio corpo também era uma “regra”. No interior, a palavra regra também aparece como um dos tantos sinônimos de nosso período fértil e era assim que minha avó e tias falavam sobre o assunto e continuam falando, inclusive quando chegou minha primeira menstruação. 

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Era julho, eu tinha 12. Rumávamos para Mongaguá, onde passaríamos alguns dias na praia. Ao chegar, fui direto para o banheiro, uma dor de barriga me acometeu de forma diferente e o marrom da calcinha me assustou. Logo a dor aumentou, vindo acompanhada de um medo gigantesco tomando conta daquele momento esquisito.

Eu chamei minha mãe. Diferente de outras casas, ela sempre conversava sobre isso, me dizia onde eu podia achar absorvente e me instruía caso o fato acontecesse. Ela estava tranquila, eu também fingi estar. Eu me sentia estranha, era como se eu não pudesse fazer mais as coisas que eu fazia até ali, como brincar de barbie e correr pela casa. Naquele fim de semana, choveu, boicotando a ida à praia. Ainda bem, pensei.

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Eu não queria menstruar. Diziam que depois do primeiro fluxo a menina só cresce mais 7 centímetros. Eu realmente não sei até hoje se isso é real, mas eu tenho 1.58 cm. E, naquela época, eu queria ser alta, porque se assim não fosse eu não iria poder tentar ser modelo ou, então, jogadora de vôlei. Uma tremenda besteira que me fazia maldizer a vida e o meu ciclo enquanto mulher.

Havia um medo mesclado à raiva dos meninos que sempre riam das calças manchadas de rubro. A vergonha do vizinho, que agora observava os seios crescendo, te engolindo num olhar. Era se olhar no espelho e não saber pra onde fugir, diante de tantos hormônios.

É na rua que, muitas vezes, a menina-mulher que vai crescendo na gente sofre com os primeiros assédios. “Tão pequenininha do bum-bum grandão”, eu lembro que ouvia, toda vez que passava em frente ao posto de gasolina indo para a escola. Eu tinha só 12. 

Isso é tão forte que a gente cresce tentando esconder nosso corpo. A minha avó de 94 anos conta que,em seu tempo, a primeira menstruação era dita às escuras, em um banheiro no fundo de casa, enquanto a mãe providenciava o o pedaço de pano que havia cortado de uma camiseta velha. Foi assim com muitas gerações de mulheres da família, que tiveram que aprender na marra como segurar as dores das cólicas e o choro das angústias.

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Como eu disse, minha mãe sempre teve um papo muito aberto comigo. Ter primas mais velhas também me ajudou a criar referenciais. E a única coisa que, aqui em casa, nos impediam de fazer “nesses dias” era bolo. “Se está menstruada, o bolo não cresce”. Mas isso é fichinha perto do que outras garotas enfrentam em todo o mundo por conta de um período menstrual.

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Créditos: Edward Musiak/ Flickr

Pesquisa realizada pela Plan International  sobre o assunto mostra que 90% das meninas em Gana se sentem envergonhadas quando estão em seu período menstrual. Na África, 1 entre 10 meninas não pode ir à escola quando estão neste momento do mês.

Em todo o mundo, meninas que vivem em lugares em situação de vulnerabilidade ainda enfrentam muitos desafios quando estão em seu período menstrual, já que não há materiais de higiene feminina, como absorventes, tampouco saneamento básico com banheiros de qualidade e água potável. Na Índia, por exemplo, apenas 12% das meninas têm acesso a esses materiais. O preço desses produtos de higiene é muito alto perto do baixo salário mínimo nos país em desenvolvimento. ( A Nana Soares também fez um artigo muito bacana sobre o tema, onde há vários links com pesquisas e matérias sobre o assunto, não deixe de ler!)

Na Uganda, algumas tribos não permitem que meninas menstruadas bebam leite de vaca, para que não contaminem o rebanho. A Fundação para Educadores de Mulheres Africanas (Foundation for African Women Educationalists) apontou que nesse mesmo país a cultura do silêncio envolvendo a questão da menstruação pode afetar diretamente a educação das meninas, uma vez que o período menstrual as afasta da escola. De acordo com relatório do Banco Mundial, se uma garota perder quatro dias de aula a cada quatro semanas por conta de seu período menstrual, ela irá perder, no fim, de 10 a 20% de sua carga horária escolar total.

Na Tanzânia, dizem que se uma pessoa vê uma roupa com mancha de menstruação, ela será amaldiçoada. Na Índia, as mulheres não podem entrar na cozinha neste momento do mês, pelo mesmo motivo que minha vó achava que o bolo não iria crescer em casa. Mas mesmo no Reino Unido, onde há infraestrutura necessária e pessoas têm acesso a esses materiais, há também vários tabus que rondam a menstruação, tanto que dois terços das mulheres não falam disso com seus amigos do sexo masculino. (clique aqui para ver exemplos de outros países).

É claro que hoje já podemos ver algumas alternativas, como o coletor menstrual, o qual comecei a utilizar há dois meses. Acho mais correto do ponto de vista ambiental e também para o meu bolso, já que o coletor, de plástico, pode ser reutilizado nos outros meses. O meu corpo se adaptou e agora já nem sinto o “copinho” dentro de mim, não vaza, tampouco suja a calcinha, mas isso não é uma regra e pode ser que o seu corpo não se adapte. E está tudo bem também. Em média, um deste custa R$50, o que ainda é um preço alto para famílias que usariam esse dinheiro em outras necessidades básicas. Algumas amigas, ainda, com o intuito de combater a indústria desses produtos, aderiram ao modo antigo, utilizando panos no lugar de absorventes. É uma opção um pouco mais trabalhosa e pode correr o risco de sujar a roupa, mas algumas mulheres veem como uma alternativa.

Diante de tudo isso, no entanto, o que fica explícito é que uma coisa tão natural quanto a menstruação ainda é um grande tabu e, mais que isso, prejudica fortemente o desenvolvimento das meninas, principalmente aquelas que vivem em lugares com menos acesso aos serviços sociais básicos, como saúde e saneamento, colaborando com a desigualdade social e de gênero em todo o mundo. Nesse Dia Internacional da Menina, espero que a menstruação realmente seja debatida e que as meninas não tenham nenhum direito a menos apenas pelo fato de vivenciarem sua transição como mulheres.

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