Por Jéssica Moreira | 13/07/2017

Naquela noite, o corpo gelado sentiu pela primeira vez o quente da manta que, vagarosamente, perfurava todo o tempo. Aqueles buracos alargavam tanto as dores, que até a mais tortuosa distância era só passeio na travessia que os olhos faziam até o outro lado da rua.

Quietinho, no cantinho, no quentinho do pedaço curto de pano, o menino lembrava do chá quente que a avó sempre esquecia na beira da mesa da cozinha. O cheiro verde das mãos que buscavam o hortelã no quintal inibiam até mesmo a água podre do esgoto que, agora, passava cortante pela ponta de seus pés. 

Aquelas unhas eram sempre compridas, meio comidas nas pontas, com esmalte descascando. Os grilos se faziam tão presentes naquela quebrada cheia de matagal, que a avó não sentia medo nem de assombração. O ritual acontecia sempre às nove e pouco da noite, quando ela colhia a manta que ficava no cabide da sala, calçava o chinelo com meia e botava uma lamparina bem forte nas mãos.

Do vitrô miúdo da cozinha, o menino olhava, na ponta dos pés, aquela mulher que seguia mato adentro. Em sua cabeça, era lá que ela matava todos os monstros escondidos que teimavam em permanecer de baixo da cama. Era lá que ela cortava o cobreiro da ferida doída que ardia a pele. Era lá que ela, toda noite, rezava baixinho para Nossa Senhora iluminar o caminho – o dela, o do menino, da vida. Era de lá que ela voltava com as mãos verdes de hortelã e quentava as folhas todas em banho-maria no fogãozinho que ficava bem no lado desnivelado da cozinha.

Crédito: Hernán Piñera / Flickr

Crédito: Hernán Piñera / Flickr

Não chamava o menino, nunca chamou. Aquela já era hora de criança estar dormindo. Mas assim que ela se recolhia, colocando a manta de novo no cabide e arrastando o chinelo para de baixo da cama, o menino, correninho, ia até a sala, cobria o ombro com a coberta e seguia para cozinha pra beber o pouco de chá que já começava a ficar frio.
Era nesse instante que ele se sentia forte, a manta o próprio manto e, naquela brincadeira escondida na cozinha, desviava das cadeiras, da mesma forma que a velha fazia com o mato ao redor da casa.

As folhinhas de hortelã picadas eram seu escudo e, no meio do nada escuro, ele guerreava contra os monstros da casinha de pau a pique, até a vó escutar, no sonho mais longínquo, o barulho que não a deixava descansar. “Vai já pra cama, menino!”, gritava do quartinho, enquanto ele saía correndo com a manta e as folhinhas na mão.

Esse é um texto fictício inspirado nas avós periféricas que rondam o cotidiano de Jéssica

Jéssica Moreira, é jornalista, cofundadora do Nós, mulheres da periferia e moradora de Perus, zona noroeste de São Paulo.

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