Por Jéssica Moreira | 23/08/2017

Eu sempre quis fazer intercâmbio. Esse era o grande sonho da minha vida. Eu via na experiência de viver em outro país uma oportunidade de crescimento pessoal, já que nesse processo nos deparamos com diversas situações desafiadoras por estarmos longe de casa e da família.

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O Inglês também era um objetivo, já que eu odiava essa língua. Hoje eu amo, pois eu sinto em Inglês. Eu amo, eu odeio ou sinto raiva em Inglês. Acho que uma língua só faz sentido quando se relaciona à nossa afetividade. É dessa forma que, hoje, sinto o Inglês na minha vida, é próximo, é perto, bem perto.

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Jéssica Moreira| Créditos: Claudia Vieira Photography

Mas sem sempre foi assim. Para quem vem de escola pública, o Inglês é sinônimo de verbo to be e os conteúdos compartilhados pelos professores não fazem nenhum sentido com a nossa realidade. Tirando a galera que tocava músicas de bandinhas norte-americanas, sinto que a minha geração (escola pública na quebrada) não aprendeu e nem gostava de inglês no período escolar.

Ao terminar o ensino médio, em 2008, um sentimento de depressão pairou em mim. Eu não havia passado em nenhuma das universidades que havia prestado. Eu costumava passar 12 horas por dia dentro da escola, fazia curso técnico e, naquele momento, me vi paralisada, sem nada para fazer.

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Foi aí que meu pai, mãe e avó se juntaram para fazer uma “vaquinha” para pagar um curso de inglês pra mim em uma escola particular no bairro. Sim, só assim era possível pagar. Fiz o curso até meados de 2012, mas não gostava muito, era tudo muito distante da minha realidade. Mas alguns professores do curso contavam com tanto gosto das experiências que haviam tido fora do país, que aquilo acabava me inspirando. Era Canadá, Estados Unidos ou Irlanda, os principais destinos deles.

Em 2012, meu professor favorito foi para Dublin. Logo depois, dois amigos também. Me mostrando que era possível. Eu não tinha grana, ganhava 800 reais estagiando na área de comunicação até 2013. Não havia como juntar dinheiro, mas eu dizia para todo mundo que, após finalizar o curso de Jornalismo, eu iria viajar para fora. De maneira muito perseverante mesmo, pois quando não se tem nada, a única coisa que você tem é o sonho.

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Jéssica Moreira| Créditos: Cláudia Vieira Photography

Aí, para a minha surpresa, antes mesmo de terminar a faculdade eu troquei de trabalho (duas vezes), passei a ganhar melhor e consegui guardar mais dinheiro. O sonho ficou mais próximo. Em julho de 2013 eu terminei a faculdade. Em dezembro, comecei a pesquisa sobre agências e lugares. Em fevereiro de 2014 eu decidi que o destino seria Dublin (Irlanda); em março fechei o pacote do curso, passagem, estadia, etc. e, no dia 10 de agosto, pela primeira vez na vida, eu peguei um avião internacional no Aeroporto de Guarulhos com destino ao meu sonho.

Preconceito linguístico e os b.o.s da chegada

Minha primeira dificuldade foi com a língua, já que meu inglês era muito, muito básico. Eu trabalho me comunicando, sou jornalista, articuladora social, então, me expressar aqui no Brasil (de forma falada ou escrita), nunca foi um problema. Eu nunca havia sofrido preconceito linguístico antes. Mesmo que de forma tímida, quando você chega a um novo país que não sabe a língua, você sofre esse tipo de preconceito, sim. As pessoas não têm paciência e acabam desistindo de conversas. É uma fase difícil, que precisa de muita perseverança e estudo. Durante seis meses, eu lia, mesmo sem entender, um jornal que entregavam gratuitamente pelas ruas, ouvia uma rádio local, escrevia em um diário e falava sozinha mesmo na rua, com um fone, fingindo que estava falando ao telefone. Ali, eu apenas dizia para mim mesma: eu estou pisando no meu sonho!

E, agora? Onde morar? 

Outra dificuldade que encontrei logo na primeira semana foi a de encontrar casa para morar. Em Dublin, isso é um grande desafio e eu cheguei em agosto, um mês antes do início do ano escolar – eles começam em setembro. Foi muito difícil, por isso caímos (eu e minha prima) em uma grande cilada, de uma senhora chamada Susi Medeiros, que sublocava casas em Dublin de forma irregular.

Nós, com medo de ficarmos sem casa, pagamos um depósito no valor de 350 euros para ela em nosso terceiro dia por Dublin, ou seja, perdemos 700 euros (mais ou menos R$ 2.400 na época)  logo na primeira semana no novo local. As regras da casa eram escritas em um papel, todo em inglês, uma loucura, não entendíamos nada. Além disso, era proibido atender o telefone, a campainha ou, então, receber cartas. Começamos a achar tudo aquilo muito estranho e resolvemos não morar lá mais e no outro dia pedimos nosso depósito de volta, mas ela não devolveu.

Chamamos a garda (polícia local), que não resolveu nada. Então, fomos até a casa dela, no portão, e o coreano que morava lá também não podia sair no portão, então jogou um avião de papel do alto da casa pra gente, com o número de outro coreano que já havia sido passado para trás também.

Com isso, descobrimos que ela fazia isso com muitas pessoas. O coreano nos apresentou ao francês, que estava conectado a outra iraniana e a uma quarta vítima, uma brasileira. Todo mundo roubado. Nos reunimos umas duas vezes na beira do Rio Liffey, sem mesmo falar inglês, mas unidos por um problema em comum. Foram várias conversas por Skype, a polícia não podia fazer nada, nós tínhamos mesmo que levar o caso para a corte irlandesa.  Eu e minha prima desistimos do dinheiro e a iraniana continuou esse processo no órgão que cuida disso. Perdemos definitivamente os 700 euros. Ou gastávamos nossa energia aprendendo inglês ou na busca do dinheiro perdido. Decidimos estudar.

Uma amiga nos acolheu em sua casa, mas na mesma semana encontramos um flat de dois cômodos para dividir com mais três garotas. Parece impossível, né? Mas foi assim durante um ano e, melhor, sem nenhuma briga. Morava no centro, a cinco minutos do mercado, da balada ou da escola. Mas sabe como é moça vinda da periferia, né? Saímos dela, mas ela nunca sai da gente (que bom!). Tanto que eu vivia uma intensa busca pela periferia de Dublin. Para minha tristeza, de menina vinda do extremo norte da capital paulista (Perus), não havia um território periférico como conhecemos aqui. Ao ir para longe dos centro, os sobrados sem portão tinham tudo ao redor. A periferia não era geográfica, mas sim “humana”.

Uma jornalista que virou babá por acaso

Não tive dificuldades em arrumar um trabalho, na verdade tive sorte. Como sou jornalista, fui em busca de pautas sociais em Dublin. Após ler o jornal, vi uma artigo falando de cleaner e au pairs, as dificuldades e descobri o Centro de Direitos do Imigrante (Migrant Rights Centre Ireland). Comecei a frequentar as reuniões do grupo “Au pair Rights Ireland” para encontrar histórias para futuramente escrever matérias. Lá, uma moça me indicou para uma vaga (mas isso também foi despretensioso, pois não é um local de indicação de vagas, mas de discutir direitos). Lembro-me bem dela perguntando: está procurando emprego, eu disse não, pois não pensava em trabalhar naquele momento, mas ela me indicou mesmo assim. Então fui o que lá chamam de “nanny”, eu não era au pair, pois não morava na casa. Esse tipo de trabalho é quase um sonho para muitas brasileiras que vão para lá. Trabalhava de 3 a 4 horas por dia, ganhava o mínimo do período 8.65 euros, conseguia pagar minhas contas, beber minha pint e viajar! Trabalhei por 6 meses mais ou menos. Foi muita sorte.

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Jéssica | Créditos: Claudia Vieira Photography

Continuei fazendo parte das reuniões, workshops do grupo, o que me enriqueceu muito, já que eu sentia muita falta da movimentação social de São Paulo. Eu costumava ir às passeatas também, como aquelas que lutavam contra a cobrança da água (NO water charge!), assim como “Pro-Choice”, uma campanha de mulheres que lutam pela legalização do aborto em Dublin. Ia a encontros feministas do grupo Rosa também, sempre buscando coisas que já eram muito importantes pra mim no Brasil.

A gente aprende a conviver com a solidão

O intercâmbio colaborou muito no meu processo de maturação. Eu sou outra pessoa. Aprendi a me organizar, principalmente financeiramente. Aprendi a cozinhar e cuidar de mim. Aprendi também a conviver com a solidão e a gostar de mim, pois na situação de intercambista há muitos momentos em que você se sente sozinha. Aproveite esse tempo para perceber quanto você pode se divertir sozinha (o), viajar, ir a festas, bares, museus. É possível ser feliz sozinha. Eu morei com coreana, chilena, mexicana e outras brasileiras em um flat de dois cômodos e nunca brigamos. Aprendi a tolerar diferenças e a aprender com elas. Foi enriquecedor, ampliou minha visão de mundo e colaborou para entender os processos de uma cultura diferente da minha. Esteja muito aberto a isso. Eu fui para a Irlanda um mês após a morte de meu pai, vi toda a viagem como um processo de “rompimento do cordão umbilical a fórceps”. Ou eu amadurecia ou eu amadurecia e, com certeza, essa viagem me tornou mais segura.

Eu fiquei exatamente um ano na Irlanda. Uma amiga costuma dizer que tive um intercâmbio de sucesso, já que consegui realizar tudo que eu queria nesse tempo. Uma delas foi fazer um mochilão pela Europa sozinha, onde pude conhecer outros 13 países. Não acho que minha experiência seja universal. Estar longe de casa atravessa cada pessoa de forma muito única, então é impossível falar de apenas um lugar. Eu voltei em 2015 com a plena certeza de que há muitos lugares bem bonitos no mundo, mas nenhum – nenhum – é mais especial que o meu próprio lugar.

Descobri  no intercâmbio que periferia é um conceito que vai muito além da questão territorial. Periferia não é apenas a borda que se faz em torno da cidade, como temos na capital paulista. Periferia é também estar à margem, estar longe de direitos básicos ou, muitas vezes, nem saber que eles existem. Eu, meus vizinhos, e cada um dos imigrantes daquela cidade, formávamos  a periferia de Dublin. Mas isso a partir do meu olhar: de quem saiu da periferia, mas a periferia permaneceu dentro de mim.

8  dicas para quem pensa em fazer intercâmbio:  

1) Não acredite em tudo que as agências te dizem sobre facilidades em conseguir emprego ou casa para morar. Não acredite nas agências, procure seus amigos de fé, irmão, camarada;

2) Tente saber sobre seus direitos enquanto pessoa migrante. Migrar não é fácil em nenhum lugar do mundo, é bom encontrar um lugar que te acolha;

3) Não fuja de outros brasileirxs. Isso é a maior besteira que dizem para você “aprender inglês”, pois seus conterrâneos são pessoas que podem te ajudar;

4)  Mas aproveite para fazer uma nova e grande rede de amigos. Afinal, você está longe de casa, né?

5) Tente descobrir a cultura local, saia para lugares gratuitos. Às vezes, ir tomar uma água (rs) no pub é a melhor maneira de aprender um novo idioma (sim, eu fazia isso!);

6) Aproveite para aprender a cozinhar aquele prato que você adora. É uma oportunidade!

7) Leia o mundo novo ao seu redor. Leia os jornais, leia as pessoas, lembre-se que você só vai aprender mesmo uma nova língua quando começar a escutar as pessoas com atenção;

8) No mais, não siga listas ou fórmulas mágicas. Faça inicialmente o que você mais gosta de fazer.

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