Quando o trem sanfonado finalmente chegou até a linha 7-rubi, muita gente sentiu a diferença. O ar, de repente, ficou todo arejado, mesmo quando a janela permanecia fechada. A porta não empacava e a tevê embutida à parede fazia a gente até pensar que a gente estava no metrô – que em um-dois chegaria ao tão aguardado destino.

Trem na periferia

Crédito: Trem na periferia. Divulgação

Seu andar era macio, ferro escondido na carcaça de porcelana. No fim, a gente sabia… era tudo uma grande farsa de trem meio vazio meio cheio, que enchia as gentes de esperança, até que as próprias sanfonas começavam a encher, a encher… e aí, o que era meio largo, logo ficava miudinho de tanta perna, cabeça, braço e ombro.

Um dia, nessas idas bem lotadas, um passageiro cutucou a senhora do lado pra lembrar do tempo que o trem ainda tinha porta (entre um vagão e outro)…”lugar não tinha mesmo, né, mas a gente arrumava um jeitinho de sentar no chão, meio amontoado ali na porta de ferro que nunca abria, mas sentava…tempo baum, que ói…”. Ela deu uma gargalhada. “Mas num é que é mesmo, eu até já tentei me ancorar aí nessa sanfona, mas dá umas escorregada que quase dirruba a gente no chão, tem que vê”.

Enquanto os dois falavam, destrambelhadamente, o marreta vinha logo atrás, com toda a sua artimanha e ritmo que só tem quem já vendeu no balanço da carcaça de ferro. “olha a mercadoria direto de Moscou…moscou, moscou? o guarda levou”. E a galera ria, mesmo que sozinha, o trocadilho todo feito na marotagem.

Sua voz atravessava o vagão feito um foguete, melodia certeira no cliente que não ousaria dizer não. Passou pelos dois proseadores sem pausar uma sílaba e, muito menos, descer o tom, que chegava rasteiro de um vagão pro outro, sem precisar dar aquela corrida do guarda e pausar a frase bem no meio do Ô da oito pilha! tem portas que se abrem pra uns e se fecham pra outros mesmo, né?

Jéssica Moreira, 26, é moradora de Perus (região noroeste de São Paulo) e é cofundadora do Nós, mulheres da periferia. 

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