Nós, mulheres da periferia

Na periferia da saúdeprecarização do SUS afeta mais mulheres pobres e negras

Uma reportagem sobre cuidado

É consenso que o tema da Saúde interessa a todas as pessoas. Em qualquer roda de conversa, fila do banco ou transporte público, todo mundo é a favor de uma saúde de qualidade.

No Brasil, mais de 70% da população depende exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde). Então, em algum momento da vida, já precisou recorrer a um postinho, UBS (Unidade Básica de Saúde) ou hospital público, seja para si próprio, para os filhos ou outros familiares.

Mas, você conhece a história do SUS, o seu funcionamento, sabe por que, muitas vezes, as coisas não funcionam?

Para responder a essas e também outras perguntas, o Nós, mulheres da Periferia percorreu diversos bairros da cidade de São Paulo, visitamos as UBSs (Unidades Básicas de Saúde), levantamos um montante gigante de dados, conversamos com especialistas, militantes históricas do movimento de saúde no Brasil e, mais importante, ouvimos diversas mulheres das bordas da capital paulista para entender como realmente é o atendimento da mulher periférica no sistema público de saúde.

Durante todo o processo de investigação, apuração e escrita, não perdemos de vista que as mulheres negras são as principais usuárias do SUS e, ao mesmo tempo, as mais discriminadas e prejudicadas.

Esta reportagem é sobre cuidado, é sobre voltar para casa e ver a netinha crescer, é sobre se reconhecer na luta de outras mulheres que não são estatísticas, mas histórias reais, mulheres que querem viver. Escrevemos sobre o SUS porque nosso direito à vida depende que esse sistema seja verdadeiramente universal, integral e que promova a equidade.

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Desejamos que leiam. Que olhem para essas mulheres e para o SUS com a admiração que merecem.

Vamos juntas?

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Esta reportagem tem apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do edital “Jornalismo Investigativo e Direitos Humanos"

A história do SUS e as mulheres

Olá, querida leitora,

Aqui é Jéssica Moreira falando. Neste capítulo trataremos da história do SUS (Sistema ùnico de Saúde) contando a história de mulheres militantes, assistentes sociais e donas de casa que, na luta pela própria saúde e de suas comunidades, pensaram no bem viver de todos . Para mim, os caminhos dessa pauta se abriram da maneira mais dolorosa possível. Foi quando vi meu pai morrer em uma maca de hospital. Desvendar e fazer outras pessoas entenderem como funciona o Sistema Único de Saúde (SUS) se tornou uma missão para mim.

Passei a frequentar as reuniões do Movimento de Saúde de Perus e descobri ali uma triste constatação: nós, jovens, não estamos cuidando da saúde, não participamos dos encontros, como se a saúde fosse apenas uma coisa dos mais velhos, não imaginando como precisamos dos serviços em todas as etapas de nossas vidas.

Agora é Lívia Lima por aqui! Eu moro no Jardim Nordeste, zona leste da cidade de São Paulo. Foi muito importante para minha carreira ter a oportunidade de realizar uma pesquisa e resgate histórico da importância das mulheres da zona leste para a construção do SUS como política pública, e a força desse movimento para a melhoria do acesso e atendimento à saúde na região.

Foi emocionante encontrar meu pequeno bairro no protagonismo dessa história, onde aconteceram as primeiras construções dos conselhos de saúde, tão relevantes para a construção do SUS e também para o processo de estabelecimento da nossa, hoje ainda, frágil democracia.

Quem escreve dessa vez é Semayat Oliveira, jornalista que também foi às ruas para a construção desta reportagem. Resgatar a história de mulheres negras que lutaram pela consolidação do SUS é um compromisso fundamental, não só com o futuro, mas com o presente dessa população. Quando denunciamos que décadas atrás mulheres negras e periféricas estavam lutando pelo direito à saúde pública e que, ainda hoje, não têm esse direito garantido, damos continuidade a uma luta ancestral.

Por outra perspectiva, marcar que as reivindicações de pessoas negras e periféricas foram muitos dos tijolos que consolidaram o SUS, também diz muito sobre a não prioridade da saúde na agenda política brasileira até então. Nossa investigação não traz uma realidade desconhecida ou inesperada para nenhuma de nós, mas se faz essencial para não esquecermos a profundidade do problema.

Boa leitura! Contem o que acharam ;)
Jéssica Moreira, Lívia Lima e Semayat Oliveira

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Zona leste: o berço do SUS

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‘Saúde virou negócio. Mas vale lutar, foi uma luta que fizemos parte’

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‘Existem dois mundos: o dos ricos e o dos pobres’, diz ativista de saúde

“Foi com o SUS que criei a minha liberdade”, diz agente comunitária de saúde

Do pequeno para o universal: Jardim Nordeste e a história do SUS

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Católicas e evangélicas: mulheres unidas nos conselhos de saúde do SUS

Desmonte do SUS e periferia

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Neste capítulo, nos propomos a explicar o que é afinal o tão falado “desmonte”. Para mim, Jéssica Moreira, entender todos os meandros da saúde não foi tarefa fácil, as palavras são difíceis, os termos econômicos muito distantes do nosso entendimento. Escrever sobre isso foi uma aula de cidadania. Mais que isso, para nós, mulheres, falar de saúde é tão complicado quanto vivenciá-la em forma de auto-cuidado. A gente demora pra encontrar tempo, para entender sua importância. Exatamente como aconteceu comigo no caminhar da feitura desse conteúdo. 

Desde seu nascimento, o SUS passa por um recorrente desmonte e subfinanciamento. Só em 2019, perdemos 9 bilhões na área, com a promulgação da Emenda 95 do Teto dos Gastos. Defender o sistema é também defender a vida de mulheres negras e periféricas. E nossas pesquisas também caminharam para entender como se dá essa conta.

Menos dinheiro significa também menos médicos, mais tempo de espera, diminuição dos serviços de qualidade, pouco acesso a remédios, e até mesmo o fim de programas de prevenção reconhecidos mundialmente. 

Boa leitura! Espero que pensemos juntas sobre isso
Jéssica Moreira

 

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Desmonte e financiamento do SUS: a conta que não fecha na saúde brasileira

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Além do Coronavírus: 11 fatos mostram como o desmonte do SUS afeta a periferia

Experiências de atendimento

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Quem escreve é Regiany Silva e neste último capítulo contaremos como as mulheres se sentem atendidas na saúde pública. Já passei seis, até oito horas na espera no pronto socorro do Hospital Cidade Tiradentes, para tratar uma virose. Minha mãe costuma esperar quatro meses para passar no clínico geral na UBS (Unidade Básica de Saúde) da minha rua. O resultado da mamografia da minha tia ficou um ano na gaveta, esperando por um médico no posto de saúde para analisar e dar algum encaminhamento. 

Ela recebeu um diagnóstico tardio de câncer de mama e sofreu com as consequências desse descaso. Poucos anos depois, veio o diagnóstico do câncer da minha mãe, também no seio, e novamente veio a quimioterapia, a perda de cabelo, as dores e o medo de morrer a todo tempo. Todas essas lembranças e histórias marcadas nas nossas cicatrizes, principalmente no peito dessas mulheres que amo tanto, foram minha principal motivação para investigar o SUS, percorrer as ruas, postos e hospitais da zona leste a zona sul.

Foi na análise dos dados sobre tempo de espera e acesso à laqueadura que reconheci na minha prima, moradora de São Miguel, uma das pessoas que dá rosto às enormes filas de espera do SUS, aquelas que eu via nos números das planilhas da Secretaria Municipal de Saúde.

Caminhar entre os labirintos complexos da saúde pública também me fez lembrar do dia em que uma moça tocou violoncelo na sala da quimioterapia, em uma das primeiras sessões da minha mãe. Aquele dia minha mãe gravou a apresentação, chorou, rezou, abraçou outras mulheres. Minha mãe sobreviveu.

Oi, aqui é a Bianca Pedrina. É isso mesmo, as mulheres que ouvimos têm histórias similares de muita espera, descaso e atendimento inadequado na rede pública de saúde. Foi desafiador encontrar personagens como a Yasmin Coutinho, que sofreu por tanto tempo e ainda sofre com a precariedade no sistema e, apesar de todos os problemas, ainda o defende como a saída de atendimento possível para mulheres pobres.

Mayara Penina encerrando e dizendo que é também neste capítulo que ouvimos mães que contaram suas experiências diversas de parto e pós-parto. Sempre abrimos nossa perspectiva sobre as coisas quando olhamos como a política pública cuida das mulheres e crianças, não é mesmo?
Esperamos que se reconheçam e aprendam com estas histórias ;)

Boa leitura!

Bianca Pedrina, Mayara Penina e Regiany Silva

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Violência obstétrica: da desumanização do corpo negro ao parto humanizado

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