Na segunda Marcha das Mulheres Negras, a ativista reafirmou que envelhecer também é luta
Texto: Amanda Stabile
Fotos: Marina Gadelha
Atualizado em 28|11|2025
Aos 72 anos, Lenny Blue de Oliveira atravessou a Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF), carregando no corpo toda a história que ajudou a construir. Advogada, jornalista, escritora, ativista feminista e cofundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), ela esteve na Marcha das Mulheres Negras 2025 em dupla posição: como parte da organização e como uma das vozes históricas do movimento negro brasileiro.
Logo no início da manhã, Lenny apareceu já preparada para as horas de caminhada. Vestia algumas camadas de roupa — “sou frienta”, comentou — e foi tirando as blusas conforme o calor de Brasília subia. Levava uma mochila vermelha nas costas e, presa à camiseta por pequenos botons, uma faixa do MNU que balançava enquanto caminhava entre as mais de 300 mil mulheres que também compareceram à marcha.
A cada poucos passos, era parada por abraços, selfies, reencontros. Mulheres mais jovens a chamavam com brilho nos olhos; mais velhas seguravam suas mãos; muitas apenas pediam para registrar aquele instante ao lado dela.
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Ao lembrar da primeira Marcha das Mulheres Negras, em 2015, ela resumiu a diferença entre aquele momento e este: “Na primeira estávamos mostrando a nossa cara, visibilizando as demandas do feminismo negro. Na segunda queremos reparações. Reparações não é favor, é direito. Pontuamos os motivos e fundamentamos o direito à dignidade e ao bem viver”.
Ainda durante a concentração, antes de a marcha começar, um momento marcou profundamente Lenny: a abertura conduzida pela Irmandade da Boa Morte, confraria afro-católica formada por mulheres negras idosas, reconhecida como uma das mais antigas e importantes organizações femininas negras do país.
“A abertura com a benção da Irmandade da Boa Morte, receber os abraços e bênçãos das Irmãs, estar ao lado delas naquele momento foi emocionante”, contou. Para ela, a presença da Irmandade — cujas raízes remontam a mulheres negras libertas e descendentes de escravizadas no Recôncavo baiano — representa a continuidade de tradições que articulam fé, resistência e cuidado comunitário há quase dois séculos.
“A Irmandade da Boa Morte é a 1o movimento feminista negro do País e muito nos ensina sobre formas de resistência na luta e fé. A fé na luta que moveu milhares de mulheres a marchar”, reflete.
Ainda nos primeiros metros da marcha, ela olhou em volta e comentou, com indignação: “Tem muitas velhas na marcha, né? Mas o manifesto não fala nada sobre nós”.
A leitura do documento oficial confirma a observação. O Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver não faz referência à velhice, idosidade, etarismo ou envelhecimento negro. Esses temas não aparecem entre os eixos descritos nem nas proposições apresentadas.
Embora o texto trate de reparação histórica, educação, terra, previdência, justiça racial, memória e outros campos de reivindicação, não há menção específica às mulheres negras mais velhas. Lenny vê nisso uma urgência política.
“30% das mulheres eram velhas (insisto no termo velhas para desmistificar o peso discriminatório) o que deixa escuro que as demandas da idosidade devem ser um outro olhar”, defende.
“A visibilidade é fundamental para as políticas públicas específicas das mulheres velhas. O racismo estrutural é potencializado na velhice o que torna as desigualdades de uma vida, entrave para o direito de envelhecer com dignidade”.
Um dia antes da marcha, em 24 de novembro, Lenny lançou seu livro “Idosidade: crônicas de uma mulher negra para inspirar tâmaras” (Editora Matrioska, 2025) durante a programação oficial da Marcha, no Aquilombar, um bar negro que funciona como afeto, cultura e território de encontro. “Eu gosto de alegria!”, sorriu ao explicar a escolha do lugar.
Lenny não associa velhice ao recolhimento, mas ao convívio e à vida cotidiana. Lançar o livro em um bar, entre música, conversas e risadas, foi também uma declaração política: a idosidade negra pertence aos espaços de celebração, e não apenas aos ambientes formais.
O livro reúne 120 páginas de memórias e crônicas que tratam do envelhecer como experiência marcada por raça, gênero e classe. Nos textos, a autora aborda questões como autonomia, cuidado, dor, fé, ética do cotidiano e humor — sempre a partir do ponto de vista de uma mulher negra que viveu essas camadas de opressão e resistência.
A metáfora das “tâmaras”, presente no título, opera como fio condutor: são frutos que só amadurecem plenamente depois de muito tempo, evocando processos lentos, intergeracionais e de paciência política.
“A ideia é marcar território da idosidade. Meu livro visibiliza o tema reforçando a importância da consciência do envelhecimento e as velhices múltiplas. Lançar o livro nas atividades pré marcha foi lancar a semente para despertar a reflexão do tema, que ainda não consta do rol das diversidades. A idosidade negra tem que estar incluída nas reparações. Não podemos ser neutros com o seu apagamento”, aponta.
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Depois da marcha, Lenny ainda participou de outras atividades previstas na programação e, naquela mesma noite, seguiu para o aeroporto. O dia longo e a disposição para continuar revelam algo que atravessa sua trajetória.
Aos 72 anos, Lenny Blue de Oliveira mantém uma atuação política ativa, contínua, que não se encerra nos limites de um ato ou de um documento. Sua presença na Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reforça o que ela mesma reivindica: a velhice negra é força política e precisa ser visível.
E, naquele 25 de novembro, enquanto a Esplanada pulsava com cantos e passos, Lenny lembrava, com o ritmo firme de quem segue em movimento, o verso que ecoou no jingle oficial: “toda mulher negra move o mundo” — inclusive quando atravessa a velhice caminhando para o próximo compromisso.